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"A Igreja começa a 'ficar muda', pois está a usar uma 'linguagem morta' para falar dum Deus vivo." O o discurso veemente e de tom crítico foi feito ontem pelo principal responsável da Igreja Católica Portuguesa, em Fátima, no começo dos trabalhos da assembleia plenária da Conferência Episcopal (CEP).
Na tradicional nota de abertura, o presidente da CEP, D. Jorge Ortiga, deixou uma crítica velada a políticos pelas leis que promovem, a sectores da sociedade portuguesa como os da saúde e da assistência social, e questionou a própria Igreja, dizendo que precisa de mudar "uma linguagem de séculos, [morta]", a qual já não é ouvida por aqueles a quem se dirige - daí que a instituição esteja a "ficar muda".
O bispo, num documento que vincula toda a Igreja, retomou a problemática da reprodução medicamente assistida (RMA), como já havia feito na primeira reunião da CEP a que presidiu, em Novembro do ano passado. Nessa altura, defendeu o referendo à lei que está a ser preparada pelos deputados na Assembleia da República, um diploma surgido a partir dos textos apresentados por quatro partidos parlamentares: PS, PSD, PCP/PEV e BE.
D. Jorge Ortiga assinalou a existência de "conhecimentos científicos" e "instrumentos técnicos eficazes" que permitem a regulamentação jurídica "precisa e norteada pela ética e valor inviolável da vida". Mas, na opinião que emite, esses instrumentos estão a ser usados em sentido diverso, justificando que "o valor da vida sofre hoje uma espécie de eclipse".
Isto comprova-se, segundo o bispo, através do "fenómeno de se procurar encobrir crimes contra a vida, nascente ou terminal, com expressões de âmbito terapêutico". Estas serviriam, então, para "desviar o olhar do facto de estar em jogo o direito à existência de uma pessoa humana concreta".
Se neste caso o bispo se refere ao projecto de lei da RMA, "o conflito" em causa, entre "uma cultura da vida e a cultura da morte", não exclui a chamada lei do aborto ou a eutanásia. Ideias que se tornam mais claras ao ser dito que o que aqui está em causa é um "conflito onde todos estamos implicados e tomamos parte a favor da vida".
Deitando mão a um argumento recorrente, os bispos portugueses denunciam ainda "uma caminhada para a mercantilização da vida", dando como exemplos, "o comércio de órgãos e a manipulação e destruição de vidas humanas". No seu exercício do direito ao contraditório, a partir de um púlpito acompanhado por todos os meios de comunicação social, os bispos lançaram um repto aos políticos católicos - já que, no seu entender, a estes compete "a ousadia da diferença", de modo a que "em sede legislativa" se assumam como defensores do "direito à vida".
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