Publicidade
Diário de Notícias Diário de Notícias


opiniao

A Páscoa do mundo: não à opressão e à morte

por

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia  

Ofamoso filósofo Fichte tem um texto com perguntas que todo homem, minimamente atento à vida, alguma vez fez, pois são perguntas que ele transporta consigo, melhor, que ele é. O filósofo alemão escreveu que o ser humano não deixará facilmente de resistir a uma vida que consista em "eu comer e beber para apenas logo a seguir voltar a ter fome e sede e poder de novo comer e beber até que se abra debaixo dos meus pés o sepulcro que me devore e seja eu próprio alimento que brota do solo"; como poderei aceitar a ideia de que tudo gira à volta de "gerar seres semelhantes a mim para que também eles comam e bebam e morram e deixem atrás de si outros seres que façam o mesmo que eu fiz? Para quê este círculo que gira sem cessar à volta de si?... Para quê este horror, que incessantemente se devora a si mesmo, para de novo poder gerar-se, gerando-se, para poder de novo devorar-se?"

Também Ernst Bloch, o filósofo ateu religioso, escreveu que o homem nunca há-de contentar-se com o cadáver.

Há aquelas perguntas in-finitas: Quem sou? Para onde vou? Onde estarei quando cá já não estiver? E o dramático é que, por um lado, a vida depois da morte é completamente não figurável - para lá do espaço e do tempo, não é possível qualquer representação. Nunca poderei dizer: morri, estou morto - serão outros a dar a notícia.

Por outro lado, é insuportável acabar, andar, na vida, de sentido em sentido e, no fim, afundar-se no nada - não ir para lado nenhum. Sendo o homem "alguém", quem afirma o nada no termo vê-se confrontado com a pergunta: como se passa de "alguém" a "ninguém"? Como conceber uma consciência morta? Afinal, o que era antes de morrer? Se tudo desembocasse no nada, qual seria a distinção entre bem e mal, honestidade e desonestidade, honradez e mentira, verdade e falsidade, já que no fim tudo se afundaria no nada e tudo seria o mesmo: precisamente nada?

Nos seus inícios, o cristianismo triunfou, porque a uma sociedade angustiada com a morte se apresentou com a promessa inaudita da esperança na ressurreição. Mas hoje a morte é tabu, e a ressurreição dos mortos e a vida eterna tornaram-se não plausíveis e sem interesse. Parece que os homens se contentam com o consumo diletante, entretidos na corrida louca duma agitação paralisante, desfrutando instantes e entregando-se à morte inevitável, numa espécie de melancolia resignada.

E não será assim porque hoje se ama pouco, pois só o amor requer eternidade? Mas então, numa sociedade sem eternidade, o que resta são só instantes, que não podem fazer texto nem encontrar sentido último, porque se devoram uns aos outros.

Para quem se não perdeu na superfície da banalidade, a Páscoa, no seu sentido de passagem, é a experiência do transcender constitutivo do ser homem. O homem nunca se contenta com o dado nem com os factos brutos: vai sempre além, num além sem limites, transgredindo, pela esperança, as próprias fronteiras da morte.

A primeira Páscoa é a do Antigo Testamento e consiste na libertação da escravidão no Egipto: Deus não aceita a opressão. A segunda Páscoa é a culminação da primeira: Deus não tolera a morte. Jesus crucificado não morreu para o nada, mas para o interior de Deus, que é a Vida eterna. Como diz São Paulo na Carta aos Romanos, o Deus que cria a partir do nada ressuscita os mortos.

É tão próprio do homem saber que é mortal como esperar para lá da morte. Mas é mesmo de esperança que se trata, pois a morte é a experiência de que o homem não pode dar a si mesmo a salvação - ela é dom de Deus. O Novo Testamento só utiliza a palavra imortalidade duas vezes: uma em que se diz que só Deus possui a imortalidade, e outra em que se afirma que o nosso corpo mortal há-de revestir-se da imortalidade da ressurreição, o que significa que a imortalidade é um dom.

Então o crente dirá ao não crente, como escreve o teólogo González Faus: espero que no fim, para lá da morte, encontrarás esse Pai ou Mãe ou essa Luz de braços abertos para ti, encontrarás esse Mistério último acolhedor.

Mas o não crente poderá responder ao crente: verás a surpresa que vais ter quando vires que não há nada.

Aí, ao crente só resta a resposta: valeu a pena viver como vivi, se vivi no bem. Acreditando, a minha vida foi mais humana, abriu-se a mais dimensões da realidade, encontrou fundamento e sentido último. A prova de que a fé dos crentes não é vã só pode ser a luta contra todas as formas de morte: a fome, a guerra, a injustiça, e a favor da liberdade, da dignidade, da paz, do amor.


ImprimirImprimirEnviar por EmailEnviar por Email
PartilharPartilhar


Siga-nos em
Especiais

Recuar
Avançar
PUBLICIDADE


PATROCÍNIO
sondagem

Inquérito DN

Quem tem mais culpas na má época do Sporting?

José Eduardo Bettencourt
Paulo Bento
Carlos Carvalhal
Pedro Barbosa
Sá Pinto
Os jogadores
Votar  Ver Resultados




Desporto

Todas as notícias

Todas as notícias

Portugal

Grande Entrevista

Grande Entrevista

Desporto

Inscreva-se

Inscreva-se

Cartaz

ESPECIAL ELVIS

ESPECIAL ELVIS




Diário de Notícias, 2009 © Todos os direitos reservados | Termos de Uso e Política de Privacidade | Ficha Técnica | Publicidade | Contactos