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por
João Miguel Tavares
jmtavares@dn.pt
Se os negócios que Joe Berardo foi fazendo ao longo da vida forem parecidos com o protocolo que há três dias assinou com o Estado português, não admira que tenha chegado a multimilionário. Para não ver a badalada colecção do empresário fugir para o estrangeiro, Sócrates deu-lhe de mão beijada um museu, uma fundação e um conjunto de privilégios sem paralelo. Berardo é o Foz Côa de Sócrates: nesta terra onde a cultura se joga a tostões, o comendador foi tratado como um príncipe. O museu (com o seu nome) vai ocupar todo o espaço de exposições do Centro Cultural de Belém, e a fundação (com o seu nome) vai ser generosamente subsidiada pelo Estado.
Confesso a minha dificuldade em perceber as vantagens do negócio, apesar das loas delirantes no preâmbulo do protocolo: "A Colecção Berardo", pode ler-se, "foi instituída com o espírito de permitir às actuais e futuras gerações de portugueses uma formação cultural que lhes permita serem mais livres." O comendador investiu numa colecção de arte a pensar na minha formação e na minha liberdade. É muita simpatia da sua parte. Só que afeiçoou-se a ela: em vez de oferecer a colecção ao país, limita-se a emprestá-la por dez anos. E, em troca, o Centro Cultural de Belém compromete-se a fazer as obras necessárias para acolher os quadros, a suportar as despesas do espaço, a cuidar das reservas, e a abrir mão das receitas de bilheteira, que servirão para alimentar a fundação. Um negócio e peras.
É verdade que o Estado fica com opção de compra sobre a colecção. Só que o preço vai ser o que o empresário quiser - a avaliação a ser feita não é vinculativa se Berardo não gostar do valor apurado. E um dos números que circulam por aí estima que a colecção possa valer 170 milhões de euros. Ou seja, 65% de todo o orçamento da cultura para 2006. Ou seja, uma perfeita loucura para os cofres do Estado. Em declarações ao DN, Joe Berardo garantiu, a propósito do protocolo: "Cedi enormemente". Cedeu? Só se também ambicionasse ter uma estátua de mármore em frente do Mosteiro dos Jerónimos...
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