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por
Maria José Nogueira Pinto
Jurista
Dizer amo-te significa dizer tu não morrerás."
Gabriel Marcel
Paul Haggis é o argumentista de One Million Dollars Baby e o realizador de Crash, um filme que é, antes de mais, uma manifestação de inteligência no sentido etimológico da palavra: intelegere.
Se bem que para o espectador menos atento o argumento se esgote na temática do racismo, Crash é um tratado sobre a condição humana e um trabalho apurado da compreensão dos seus meandros, do seu âmago.
Um filme especial que foge à habitual narrativa simplificada, em regra dual, marcada por personagens com um sentimento dominante e individual. Neste caso a trama é plural, grupal e vai-se tecendo num fio narrativo que cruza as pessoas na sua própria história e na história que tece, em encontros fortuitos mas coincidentes, que ocorrem num espaço preciso e num tempo real, vertiginoso.
Tudo começa, de facto, com as primeiras palavras ditas pelo detective negro. Los Angeles é uma cidade onde as pessoas não se cruzam, não se encontram, não se tocam. E este sentimento de ausência "do outro" e "de outros" é profundamente doloroso, latente no vidro e no metal da arquitectura urbana.
E assim arranca a narrativa de mulheres e homens que nessa cidade, no curto espaço de horas, estão no centro de acontecimentos que geram reacções e sentimentos vários, em colisões concêntricas, que se tocam, agarram e desgarram, se constroem e se destroem, e sobretudo se revelam para além das aparências iniciais.
Porque Crash é uma história de revelação:
A do detective negro, a mãe doente e o irmão delinquente, um amor maternal mal repartido e um amor fraterno silenciosamente abnegado até ao sacrifício que a morte vem tornar inútil.
A dos dois miúdos negros, escumalha cândida da grande urbe, que se salvam nos seus gestos finais marcados por uma ética própria de último reduto.
A da extraordinária família iraniana, a filha amparando os excessos irracionais de um pai automarginalizado do real, o gesto patético e inútil da mãe, lavando as paredes do pequeno comércio vandalizado.
A do filho branco de um pai branco e doente que o Serviço Nacional de Saúde não trata e nem sequer admite, a burocracia inclemente personalizada por uma funcionária pública negra, que a rotina tornou insensível.
A do serralheiro negro, chefe de família consciencioso, progredindo pelo trabalho e assumindo-se como o bom cidadão, cuidando da filha que o guionista salva da morte para, deste modo, assegurar a redenção de outro pai, o iraniano.
A do cineasta negro, em ascensão, humilhado pelo polícia branco. E a do casal de chineses que enriqueceram à custa do tráfico de imigrantes. E a do miúdo negro que morre segurando a pequena imagem de São Cristóvão para consumo de automobilistas piedosos e o outro, para quem a delinquência é a última dimensão de auto-estima, que devolve à liberdade, numa derradeira compaixão, o atarantado bando de imigrantes clandestinos.
Mais o procurador corrupto, o seu cínico staff e uma mulher enfastiada pela abundância. E por fim a extraordinária dupla de polícias brancos, o "mau" que arrisca a vida para salvar a mulher negra que humilhara horas antes, e o "bom" que mata o miúdo negro, por medo e precipitação.
Crash é a história da contradição presente na condição humana, entre o bem e o mal, nunca linear, sem categorias homogéneas: humilhação e exaltação, morte e vida, dignidade e indignidade, condenação e perdão, tirar e dar. E por isso é também, como não podia deixar de ser, uma história de redenção.
E é ainda uma bela história de amor entre pais e filhos. Pais que protegem filhos vulneráveis e filhos que cuidam de pais vulneráveis. Uma história do compromisso de não deixar morrer quem se ama. Pelo menos na sua dignidade.
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