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por
Sérgio Barreto Motta
Rio de Janeiro
É hoje inaugurado, na antiga estação ferroviária da Luz, em São Paulo, o Museu da Língua Portuguesa. No Brasil, será a primeira instituição totalmente dedicada ao idioma. Segundo a Fundação Roberto Marinho, gestora do projecto, este é um museu para o séc. XXI, com novas formas de relacionar o seu acervo com o público. Os seus vastos conteúdos - sobre linguagem, a história da língua, os inúmeros idiomas que ajudaram a formá-la, as formas que ela assume no quotidiano e a criação da língua na literatura brasileira, entre outros - serão apresentados em formatos multimédia.
O museu fica no coração de São Paulo, nessa Estação da Luz que foi, no passado, o ponto de encontro entre o português falado aqui e outros idiomas. A Luz era a primeira visão que tinham de São Paulo os imigrantes que chegavam à estação em comboios vindos do Porto de Santos. Hoje, a estação continua a abrigar, diariamente, sotaques vindos de todas as partes do país.
O projecto, com um custo previsto de 12 milhões de euros, é fruto da parceria entre o Ministério da Cultura e diversas instituições brasileiras, contando ainda com o apoio da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e da Prefeitura de São Paulo. O projeto arquitectónico é de Paulo e Pedro Mendes da Rocha, pai e filho, pela primeira vez trabalhando juntos, enquanto a museografia coube a Ralph Appelbaum, que tem em seu currículo o Museu do Holocausto, em Washington, e a Sala de Fósseis do Museu de História Natural, em Nova Iorque.
Futura directora de conteúdo do museu, a socióloga Isa Grinspun Ferraz coordenou uma equipa composta por cerca de 30 dos maiores especialistas em língua portuguesa do país, entre eles Alfredo Bosi, Antonio Risério, Ataliba de Castilho, Yeda Pessoa de Castro (línguas africanas) e Aryon Rodrigues (línguas indígenas) e José Miguel Wisnik. Uma ampla comissão foi responsável pela elaboração de todo o conteúdo que sustenta cada módulo da exposição permanente, que contou ainda com a direcção artística de Marcello Dantas.
No rés-do-chão, entre dois elevadores panorâmicos, está a instalação da Árvore da Língua, criada pelo arquitecto e designer Rafic Farah. Em suas folhas são projetados os contornos de vários objectos e suas raízes são formadas por diversas palavras. A instalação é complementada por uma espécie de mantra, composto por Arnaldo Antunes, que brinca com as palavras "língua" e "palavra" ditas em vários idiomas.
Outro ponto de interesse será a Praça da Língua, espécie de "planetário da língua", composto de imagens e áudio. Uma antologia da literatura brasileira - escolhida por José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski -, com textos de alguns dos maiores romancistas e poetas de todos os tempos, evidencia o processo de criação na nossa língua. Textos de autores como Gonçalves Dias ou Machado de Assis vão ser misturados com letras do cancioneiro popular. A antologia é ouvida na voz de narradores como os cantores Chico Buarque e Zélia Duncan.
O museu inaugura com uma mostra comemorativa dos 50 anos de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. A directora teatral Bia Lessa assina a concepção e a curadoria da mostra e criou um espaço também interactivo e com efeitos cenográficos. O público ouvirá gravações com trechos da obra, lidos pela cantora Maria Bethânia. Os bilhetes custarão quatro reais (menos de dois euros).
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