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"Cheguei a ver atuns com 400 quilos no Algarve! Era preciso um carro para os transportar". Nélson Rodrigues, administrador da fábrica da Ramirez em Peniche, guarda na memória os tempos em que trabalhou no Algarve, na fábrica do pai de Maria José Ritta. O peixe foi acabando e as fábricas de conservas subiram no mapa de Portugal. A rota do atum é agora na América do Sul, onde a Ramirez, que facturou 20 milhões de euros em 2005, vai buscar quase toda a matéria-prima.
A empresa fez 153 anos e é uma espécie de reinado das conservas. Manuel Teixeira Ramirez representa já a quinta geração a tomar as rédeas da empresa. Antes dele, passaram pela história da Ramirez quatro reis, quatro familiares, duas guerras mundiais e a República.
Hoje, ao entrar numa das duas unidades da empresa, localizada em Peniche, já não se vêem pessoas a fechar as latas à mão, nem as quatro naves que compunham a arquitectura da fábrica. Mas o cheiro a atum cozido e a vapor é certamente uma condição da Ramirez desde os primórdios.
Poucas tarefas são efectuadas pela mão dos trabalhadores, muitos deles também com ligações familiares à empresa. A produção, no entanto, começa pelas mãos das mulheres que descarregam o peixe dos cestos, em longos e suculentos blocos, para a linha de produção. A única que serpenteia pela fábrica.
À data da visita do DN, as linhas de sardinha, atum com vegetais e cavala estavam paradas, mas avistavam-se ao lado bacias coloridas com feijão-fradinho, feijão encarnado, milho e outros vegetais, à espera de serem misturados com o atum. Curiosamente, o atum que vem de fora é consumido em 80% dos casos em Portugal. Já a cavala e a sardinha, orgulhosamente portuguesas, partem para outras paragens...
A internacionalização da empresa já vem do século XIX e hoje a marca é vendida na Europa, África do Sul, Estados Unidos ou Japão, estando em estudo o mercado chinês. Os nomes das marcas nestes países dizem muito acerca da adaptação da empresa aos mercados: Cocagne no Benelux, Queen of the Coast nos EUA, Al Fares, nos países árabes, Tomé nas Filipinas e também nos Estados Unidos. Uma aposta que tem tido sucesso lá fora, especialmente por estar combinada com produtos muito especializados e de grande qualidade.
Nesta unidade são produzidas diariamente 100 mil latas, embora "as linhas tenham capacidade para 180 mil", explicou Nélson Rodrigues. São perto de 200 os trabalhadores da Ramirez, embora em Peniche apenas estejam empregados 50, "um número que costuma subir em alturas de grande consumo e de muitas encomendas", clarificou.
Questionado sobre as mudanças que a Ramirez incorporou, para além das patentes nas latas, que observa com orgulho histórico, Nélson Rodrigues recorda que "era quase tudo artesanal. Ainda me lembro quando não havia empilhador! Essa, sim, foi a invenção do século, como costumo dizer". O atum e as sardinhas eram tratadas à mão, o tratamento térmico era feito através de uma caldeira a lenha e havia "entre 200 a 300 mulheres a trabalhar", quando hoje a tendência é para trocar as trabalhadoras por máquinas.
Na história da Ramirez, contam--se também inúmeras inovações, como o armazenamento do peixe em frigoríficos para posterior conservação. Mas a principal, de que muitos ainda se lembram, foi a argolinha para abrir as latas.
A concepção de cada lata, aparentemente tão simples (atum + óleo + temperos), passa por rigorosos processos de esterilização, cravação e pesagem, controlados de 20 em 20 minutos por um gabinete de qualidade. Depois da cravadeira fazer o seu trabalho e de o laser pintar a data e o lote, é tempo de o desengordurar e de o tratar a 120 graus.
Mas ainda são precisos três dias para que "a conserva seja estabilizada e depois pesada. Caso não passe no controlo, é preciso detectar defeitos críticos", explica o responsável pela qualidade, Mário Araújo.
Contas feitas, uma lata de atum demora três meses a chegar à mesa. Dois na viagem, mais um em operações que garantem o seu tratamento. Imagine-se o que seria há 153 anos... C
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