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Ideias para o debate de Bolonha e suas reformas

por

João Sousa Andrade

Prof. catedrático da Fac. de Economia da Universidade de Coimbra  

Hanna Arendt escreveu sobre a crise da educação nos anos 60: "Une crise ne devient catastrophique que si nous y répondons par des idées toutes faites, c'est-à-dire par des préjugés." A actualidade dos comentários nesse seu texto não deixa de ser extraordinária.

Julgo que hoje podemos falar em crise. Basta ler o que os estudantes nos escrevem nos seus trabalhos e exames. O português escrito é cada vez mais um português "fonético". E basta ver os conhecimentos de Matemática do estudante mediano. Lentamente, o professor do ensino secundário passou a ser aquele que é capaz de ensinar! Seja o que for. O importante é ensinar e não dominar um conhecimento científico. Em conformidade, o ensino passou, muitas vezes, a valorizar aspectos lúdicos que afastam o estudante da iniciativa de estudo e do esforço de aprendizagem de uma ciência. Mais uma vez recorro a Hanna Arendt,"L'intention avouée n'était pas d'enseigner un savoir, mais d'inculquer un savoir-faire". No ensino superior deparamos com um abandono considerável dos jovens, com taxas de insucesso enormes e uma fraca assiduidade dos estudantes às aulas. E mesmo assim, temos, globalmente, um número de licenciados superior à sua procura. Este desequilíbrio tem empurrado a universidade a multiplicar os cursos de natureza profissional.

Onde pretendemos chegar? Na universidade, o passo está dado para confundirmos o ensino científico com o ensino que cria profissionais. A dialéctica do "saber" (ou "conhecimento") e do "fazer" não pode ser encarada em geral, e não pode ser encarada da mesma forma na universidade e no ensino superior politécnico.

Quais as ideias-base da "revolução" de Bolonha? Para além dos objectivos de um ensino superior universitário europeu de qualidade, pretende-se fazer uma "revolução" de práticas pedagógicas e de aprendizagem. Que "revolução"? Em que consiste? Será que posso discutir currículos sem discutir no que consistem aquelas novas práticas? Claro que penso na aplicação das "novas ideias", por forma a melhorar o nosso ensino e a resolver os nossos actuais problemas. Não estou assim a admitir a solução adoptada noutros países, que foi de simples adequação. Porque se a questão é de adequação, depressa nos adaptamos ao "figurino" de Bolonha, e não vale a pena perder muito tempo com o assunto.

Penso que existem motivos de preocupação. A ideia que tenho visto nalgumas propostas, de redução de aulas, parece-me abusiva e perigosa. Significa isto que as horas de contacto estarão reduzidas ao "contacto directo"? E o "contacto de apoio"? E a "tutoria"? Quais as novas metodologias de aprendizagem e de estudo que vamos introduzir em proveito do estudante que tornam essas propostas adequadas? As nossas bibliotecas, frequentemente com três ou quatro exemplares de livros usados por várias centenas de estudantes, e com espaços de leitura exíguos, estão adequadas a uma maior iniciativa de estudo e investigação dos estudantes?

A ausência de assiduidade dos estudantes pode ser agravada com uma simples adaptação ao dito "figurino". Como poderemos combater os nossos problemas com as novas reformas? Os métodos pedagógicos e as práticas de aprendizagem nos primeiros semestres não deverão ser diferentes dos últimos semestres. Mas como?

Quanto à questão da dialéctica do "saber" e do "fazer", ou do "conhecimento" e da "formação profissional", os objectivos e os instrumentos adequados ao que entendemos ser uma licenciatura estão em documentos de auto-avaliação. Trata-se de aplicar esses princípios.

O que não é fácil em face do desvio para a formação profissional e da exigência posta na lei sobre o que deve ser uma licenciatura. Mas não se trata de inventar de novo, o que seria mais complicado.

Desde há vários anos que o ensino das licenciaturas tem convergido na Europa. Talvez a excepção tenha sido o afastamento da Grécia. Para essa convergência muito contribuiu a mobilidade de estudantes e docentes. Impor prazos, antecipando 2010, para uma convergência completa não faz sentido. Impor prazos que podem arrastar e, pior que isso, justificar a simples adequação pode ter efeitos catastróficos.

A regra mais útil a respeitar deveria ser a de que nenhum curso adopta o "figurino" de Bolonha se não alterar a forma de ensinar e aprender. A regra deveria ser a inversa da que impõe prazos para a "reforma".


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