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por
Maria José Nogueira Pinto
Jurista
Este verso de Chico Buarque é tão verdadeiro como actual. A dor dos pobres só vem no jornal quando quebra o dique e irrompe em caudal de violência. Ou quando se materializa num acto, um só, de extrema crueldade, desumano e gratuito.
A violência é da condição humana. Tal como a compaixão. A queda e a redenção. O bem e o mal. É este sentir que nunca cessa do nascer à morte, contraditório, lucidamente percebido, jubiloso ou sofrido que faz o humano.
Num acto único de violência morreu o "sem--abrigo". Passou a fazer parte dessa dor que os jornais tratam, que os media autopsiam com narrativas, declarações, explicações, opiniões, um discurso destinado a explicar o inexplicável, a tranquilizar consciências e a banalizar o sofrimento e a morte.
Os locutores referiram-se a "ele" e as amigas a "ela". Travesti? Dançarina de cabaret? Foi a droga? As voltas da vida? Algo (muita coisa…) o pôs à margem de si e dos outros, sem lugar no sistema, no processo produtivo, na normalidade do quotidiano.
Milhares de pessoas vivem assim. A droga, o álcool, as doenças mentais, a ausência de rede familiar, a renúncia a lutar e a sobreviver, o cansaço atiram-nos para os cantos ocultos dos espaços urbanos. Foram arrumados na categoria única dos "sem-abrigo". Aceitámos esta convivência dual. Habituámo-nos. Tranquilizámos as nossas consciências porque a dor deles é mansa e sem ruído.
Acredito, também, que a crueldade dos miúdos seja outra forma de dor. De desamor. De muita coisa quebrada por dentro. Mas isso não nos pode conduzir à aceitação da barbárie, um mundo laranja mecânica pontuado de "desculpa sociológica".
Que fazer, então, com sociedades cada vez mais geradoras de abandono, solidão, isolamento, desamparo?
A primeira tentação é explicar, evocando a referida "desculpa sociológica". Culpa do Estado, culpa da escola, culpa do meio, culpa da escassez de respostas sociais. Encheram-nos com o jargão oficial, pronto a servir. Só o rapazito, o que falava á moda do Porto, disse com candura a verdade verdadeira: para quê matar se o homem não fazia mal a ninguém? Só o rapazito disse o óbvio, que não se mata um ser humano gratuitamente. Só ele realmente achou que matar por matar não tinha justificação nem desculpa.
E tem razão, o rapazito da escola, porque as nossas sociedades ditas desenvolvidas produzem milhares de filhos cujos pais não têm competências parentais, que são retirados às famílias em nome do seu interesse, que o Estado reconhece e protege, levados para instituições onde, teoricamente, cuidarão deles. Milhares de crianças transformam-se em meninos da terra do nunca, sem raízes, referências, auto- estima, futuro. São os filhos de sucessivos abandonos e rupturas, pequenas engrenagens de relojoaria cujas peças se quebram, ponteiros parados ou em desordem.
São os filhos do nosso tempo. Sobreviventes, muitos. Mais fortes do que se pensa. Refazem-se, incorporam-se e grande parte consegue fazer a viagem e ficar inteiro. Mas nesse esforço sofrem a mesma dor inclusa, fechada, silenciosa do "sem abrigo". Também não vêm no jornal porque não matam. São apenas pequenos heróis desconhecidos que não produziram manifestações de crueldade dignas de mediatização…
Perante o risco iminente da barbárie bem pode o poder político abrir inquéritos, fingir que averigua sabendo de antemão que não pode, porque ficaria ele próprio apanhado por incúria e incompetência manifesta, na salvaguarda de tantos valores civilizacionais…
Perante o horror do sucedido é pois urgente trocar a pena pela compaixão. Porque a pena e a compaixão não são a mesma coisa. A compaixão é moralmente superior à pena, porque "ter pena" comporta uma condescendência próxima da indiferença.
Foram muitos os filósofos que trataram de distinguir as emoções - bem diferentes - contidas na pena e na compaixão, a partir do modo como o objecto da nossa pena é percebido, como algo ou alguém inferior a nós, sem identidade ou autonomia própria. A pena que sentimos é, em regra, uma emoção avulsa e ineficaz. A pena afasta-nos do "outro" ao contrário do que sucede com a compaixão. Sem esse fundo de condescendência, a compaixão envolve-nos num sentimento imperativo de responsabilidade que nos torna parte e não meros observadores.
Os que sofrem todo o tipo de indignidades em quieto silêncio e aceitável mansidão só se tornarão verdadeiramente urgentes para todos nós se trocarmos a pena pela compaixão. Sem ela, apenas explosões mediáticas, efémeros sobressaltos, justificações e inquéritos hipócritas, como um lavar de mãos.
Mas se assumirmos a compaixão, nesta tristíssima história cada um de nós matou um bocadinho e morreu um bocadinho. Como os miúdos. Como o travesti - dançarina - sem abrigo. Com eles e neles.
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