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O discurso de Belmiro de Azevedo sobre a Bolsa portuguesa foi sempre dominado por fortes críticas. Mas é no mercado de capitais que está a origem da sua riqueza. A recente oferta pública de aquisição (OPA) lançada pela Sonae sobre a Portugal Telecom (PT) é o culminar de um percurso de crescimento feito, essencialmente, através do recurso às oportunidades existentes no mercado. E quase sempre em prejuízo dos pequenos investidores.
"Belmiro de Azevedo fica sempre a ganhar mais do que os investidores minoritários, e é por isso que existe alguma desconfiança do mercado em relação à sua acção", resumiu um operador da Bolsa portuguesa, que pediu para não ser identificado. "Mas é verdade que tem uma sensibilidade acima da média para o mercado", reconhece o mesmo responsável.
O impulso registado pelo grupo Sonae começou em meados da década de 80 através, precisamente, das mais-valias obtidas com a entrada em Bolsa das empresas do grupo (ver páginas seguintes). A recente OPA sobre a PT foi o último capítulo que, a concretizar-se, fará da Sonae o maior grupo de Portugal.
"É mais um movimento oportunístico que aproveita um momento singular da PT", reconhece Pedro Castro Almeida, gestor dos fundos de acções portuguesas da F&C, parceira na gestão de activos do Millennium bcp. Para os analistas, o facto de a PT valer apenas 8,18 euros por acção antes do lançamento da OPA representou uma oportunidade única para tentar comprar a operadora.
Não se conhece qualquer posição recente de Belmiro de Azevedo sobre a Bolsa portuguesa. Mas as suas declarações ao longo dos últimos anos - feitas em paralelo com a utilização do mercado para financiar o crescimento da Sonae - destacam-se por mensagens fortemente críticas .
Em Abril de 1991, o presidente da Sonae refere, numa entrevista ao Expresso, que tem "respeito pelo mercado, mas é preciso que haja mercado e em Portugal não há". Esta posição é assumida poucos anos após ter concluído um ciclo de operações em Bolsa que resultaram na realização de mais-valias calculadas entre quatro e seis milhões de euros.
A frase mais emblemática de Belmiro de Azevedo foi proferida em Março de 1992 à revista Valor. "A Bolsa portuguesa, do ponto de vista do mercado de acções, não vale nada", avisou, acrescentando que a Bolsa só existe "para ser nociva ao País e para subvalorizar enormemente as empresas portuguesas, para que estas depois possam vir a ser compradas por qualquer espanhol".
Nessa ocasião, Belmiro aproveita para sugerir soluções com o objectivo de dinamizar a Bolsa: "Deixar o mercado de capitais aberto para as obrigações, mudar a Lei Sapateiro (primeiro Código de Valores Mobiliários) e substituí-la por uma bem simples, dar um período sabático ao mercado de acções, resolver o problema da dupla tributação e, depois, recriar um sistema de incentivos que permita relançar de facto a Bolsa".
"A moral não joga com a Bolsa"
A principal crítica à actuação de Belmiro de Azevedo na Bolsa tem a ver com a atitude em relação aos pequenos investidores. "O mercado é utilizado por ele como uma ferramenta e nem sempre com o devido respeito pelas regras do bom governo das sociedades", considera Santos Teixeira, presidente da sociedade gestora SGF e que se cruzou com Belmiro de Azevedo quando era presidente da seguradora Império.
O ponto mais controverso da actuação de Belmiro de Azevedo na Bolsa aconteceu em Novembro de 1987, quando lançou em simultâneo sete ofertas públicas de venda (OPV) que acabaram por desencadear uma investigação pedida pelo então ministro das Finanças, Miguel Cadilhe (ver página 4). Outras operações, como a retirada de Bolsa da Sonae Imobiliária, foram vistas como penalizadoras dos pequenos investidores.
Esta ideia foi reforçada por alguns comentários do presidente da Sonae sobre o papel dos investidores particulares. Em Fevereiro de 1991, numa conversa com o Expresso, afirmou que "alguns minoritários são meros investidores em acções. E quando as coisas correm mal fazem um bocado de barulho para ver se se safam". Dois meses depois, também no Expresso, reitera que "a moral não joga bem com as leis do mercado de capitais. Quem se quiser dedicar a esses problemas não pode jogar na Bolsa".
Em Abril de 1998, em plena euforia do "capitalismo popular", Belmiro vai mais longe. "As pessoas que investem na Bolsa não podem ser amadoras, têm de ter em consideração que aquilo não é nenhuma Dona Branca, é um negócio onde se ganha, mas também se perde", alerta.
Moderação com novo rosto
A generalidade dos especialistas da bolsa coincidem que, apesar do comportamento passado, Belmiro de Azevedo tem actualmente uma atitude diferente. Personalizada num novo rosto, o do filho Paulo Azevedo.
" Está um bocado diferente, com mais respeito pelas regras de bom governo do mercado", resume Santos Teixeira, numa referência à OPA da Sonae. Uma operação que, a concretizar-se, dará também um prémio aos pequenos accionistas da PT e da Sonae, tendo em conta as fortes valorizações das duas últimas semanas. C
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