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"Um dia acendi o gás do fogão e deixei a porta aberta. Sentei-me naquele banquinho que ali está, fechei os olhos e pus-me a rezar. Depois, de repente, pensei: o que é que tu estás a fazer, Maria de Lurdes? E pronto. Fechei o gás, arrumei o banco, e continuei a minha vida."
Maria de Lurdes, 79 anos, viúva, sem filhos, acredita que foi Deus que a salvou, no dia em que pensou a sério no suicídio. Nos outros dias da sua existência continua a pensar no assunto. Mas não acredita que fosse realmente capaz de o fazer. "A minha vida é muito triste mas para morrer é preciso coragem. Há três anos que não posso sair daqui, nem para comprar um raminho de salsa, nem para nada. Nas minhas orações peço ao Senhor que me leve. E fico à espera."
A solidão e o desespero levam muitos idosos ao suicídio. Carlos Braz Saraiva, psiquiatra e presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia, diz que este é "um dos problemas mais graves de saúde pública no nosso país", até porque "é muitas vezes desvalorizado ou desconhecido". Para o especialista, trata-se de um problema gerado por uma "sociedade hedonista, onde cada vez mais é preciso ser esbelto, belo e poderoso", uma sociedade onde ser velho "já nem sequer é sinónimo de ser sábio mas sim de ser-se senil e inútil". Carlos Braz Saraiva termina o raciocínio com uma alusão a um fenómeno recente: "Veja o que sucedeu agora com a candidatura de Mário Soares. Um dos argumentos que se invocava para não votar nele era, justamente, a idade."
Em Portugal, a depressão e o suicídio na terceira idade têm especial relevo, uma vez que o envelhecimento da população é dramático. O presidente da Sociedade Portuguesa de Suicidologia explica que "há muitas pessoas velhas, doentes e sós, o que constitui uma confluência de risco". Uma confluência que se revela na crueza dos números: 45% dos suicídios em Portugal ocorrem depois dos 65 anos. E 30% em indivíduos com mais de 70 anos. Números que se encontram principalmente a sul de Santarém.
Para combater a depressão dos idosos da cidade de Lisboa (que é uma das cidades mais envelheci- das da UE) foi criado em 2003 o programa "Mais Voluntariado, Menos Solidão". Um programa criado pe- la Santa Casa da Misericórdia de Lisboa em parceria com a Cruz Vermelha Portuguesa e a Associação Coração Amarelo. Isabel Godinho, coordenadora do programa, explica que o protocolo entre as três institui- ções "visa apoiar, através de acções de voluntariado, idosos a partir dos 65 anos que se encontrem em si- tuação de solidão ou isolamento".
Os voluntários fazem companhia, lêem, vão às compras. São um complemento de outros apoios domiciliários que se focam mais no desempenho de tarefas de primeira necessidade, como a alimentação e a higiene. Ainda assim, o psiquiatra Carlos Braz Saraiva não se convence: "Acho que se tapa o sol com a peneira. A verdade é que há cada vez mais idosos, muitos sem dinheiro para mais do que medicamentos, renda, água e luz. Muitos vivem praticamente sem apoios."
O principal método escolhido por homens e mulheres com mais de 65 anos para morrer é a ingestão de pesticidas. Em segundo lugar vem o enforcamento (no caso dos homens) e os medicamentos (o método preferido pelas mulheres).
Iémen garantiu a Roma não usar a força para libertar os cinco reféns italianos
ƒ um cidad‹o tranquilo, essa criatura dia 5 de M 50 aio de 1989 sentada ˆ sua secret‡ria na baixa 100 lisboeta. Tem 31 anos, um emprego h‡ dezassete, habita um apartamento de quatro assoalhadas nos 200 arredores da cidade, um dia casou, teve uma filha, depois separouÐse, viveu outras vidas, como 300 toda a gente. AtŽ mesmo o ardor que nessa manh‹ sente no brao n‹o Ž novidade, j‡ deu por ele v‡ 400 rias vezes. Embora hoje e, no acto mesmo de coarÐse, pouse mecanicamente a esferogr‡fica, arrega 500 a camisa, se ponha a olhar. O que v? Nada de especial, a princ'pio. Mas de facto, que ser‹o e 600 sa espŽcie de minœsculas manchas castanhas espalhadas na pele? Olha melhor. N‹o se trata exacta 700 mente de manchas, antes de uma rede de caroos duros, como cabeas de alfinete. Sarna? Talvez sar 800 na. O mŽdico de cl'nica geral do Centro de Saœde envi‡ÐloЇ a um dermatologista, que lhe rece 900 ta uma pomada. P›eÐna durante trs dias, sem resultado. Pelo contr‡rio, piorou. Nova consul 1000 Talvez seja seborreia. TambŽm n‹o Ž. Terceira consulta, e desta vez o dermatologista o que lhe pede Ž 1100 que faa um conjunto de an‡lises. Faz. No dia 25 de Julho de 1989 recebe uma chamada do laborat- 1200 rio, Ž preciso repetir uma das an‡lises Ñ a da toma de sangue, precisamente. Estar‹o prontas, dizem 1300 lhe, a 31 de Julho de l989.
31 de Julho Ž o dia dos seus anos. Estava a pensar estrear um fato, 1400 chegou a encomendar a fazenda, ficou de passar pelo alfaiate para tirar as medidas mas, com 1500 trapalhada das an‡lises, acabou por perderÊa vontade. Comeara mudanas em casa, pintar as paredes 1600, trocar de mob'lias, mas nada disso lhe apetece j‡. A suspeita cobre h‡ semanas o cora‹o deste ho 1700 mem de estatura mŽdia, porte retra'do, um rosto escrupuloso. MantŽm no entanto a mesa que rese 1800 vara num restaurante para jantar com os amigos. De madrugada, s‹o duas horas e n‹o consegue dor 1900 mir. LembraÐse que o laborat-rio est‡ aberto durante a noite, levantaÐse, apanha um t‡xi para 2000 cidade, entra no nœmero 30 da rua Rodrigues Sampaio, pergunta ˆ empregada se est‹o prontas as 2100 an‡lises. NinguŽm lhe disse que ia ser submetido ao teste da sida, que em Portugal n‹o pode ser 2200 feito sem consentimento da pessoa. O medo tem as doenas do medo, e tambŽm Jorge nunca quis saber se era 2300 ou n‹o seropositivo. Mas desta vez ele n‹o tem dœvidas sobre o destino das duas colhei 2400 tas de sangue que lhe fizeram. Abre o envelope, e l‡ est‡: Ž portador do v'rus de imunodeficin 2500 cia humana, vulgo VIH. H‡ coisas que se conjecturam apenas para ganhar tempo. "Quer dizer 2600 tenho sida?", pergunta ˆ mulher que acaba de lhe entregar as an‡lises. "Se n‹o tem, est‡ a caminho 2700 de ter", responde ela.
Como reagem as pessoas quando sabem que est‹o infectadas? "A reac‹o 2800 inicial Ž geralmente de p‰nico", responde o psiquiatra Nuno FŽlix da Costa, que desde h‡ anos d‡ 2900 apoio a v'timas de sida. Mas a pouco e pouco, segundo tem verificado, cada um vai integrando 3000 doena no seu quotidiano e entraÐse num processo que Ž uma espŽcie de negocia‹o permanente com a 3100 morte: conjecturar projectos, proibir o corpo, bloquear o tempo.
ƒ uma boa s'ntese para Lu's, 3200 outro doente que pediu para n‹o ser identificado. Em Maro de 1988 disseramÐlhe ser portador do v' 3300 rus, depois de an‡lise feita tambŽm sem o seu conhecimento. ÒQuando soube dos resultados pedi ao 3400 mŽdico que n‹o dissesse nada ˆ minha fam'lia, mas no outro dia j‡ toda a gente sabia l‡ 3500 casa.Ó A hist-ria de Lu's Ž uma corrida contra a morte, para ele insepar‡vel da luta contra o 3600 sistema hospitalar portugus. ÒA assistncia mŽdica prestada em Portugal aos doentes com sida Ž 3700 uma palhaadaÓ, afirma, sem grande embaraado. Internado uma primeira vez no Hospital de Santa 3800 Maria para tratamento a uma toxoplasmose deixaramÐno trs dias numa maca no corredor da enferma 3900 ria ˆ espera de vaga. ÒEm nenhum desses dias consegui dormirÓ, diz. ÒO pessoal do hospital passa 4000 as noites a apagar e acender luzes e a falar em voz alta". Descreve com pormenores a primeira 4100 pun‹o lombar que lhe fizeram, para extrac‹o de l'quido cefalorraquidiano destinado a an‡lise de 4200 meningite. No auge da dor, a agulha encravada no canal medular, procurava aÊm‹o de uma enfermei 4300 ra que lhe gritava para se agarrar ˆ almofada. As suas acusa›es a hospitais e pessoal cl'nico 4400 s‹o retribu'das por profissionais de saœde que o consideram Òum doente dif'cilÓ, para utilizar 4500 express‹o de uma enfermeira. Mas a verdade Ž que essas acusa›es s‹o partilhadas por outras pes 4600 soas.
O filho de um doente de 61 anos que, no dia 14 de Agosto de 1989, morreu com sida no pavi 4700 lh‹o F do Curry Cabral, traa um panorama tambŽm intensamente cr'tico da assistncia prestada 4800 ao pai ao longo do ms em que l‡ esteve. Uma das coisas que mais o surpreendeu, diz, foi o facto 4900 de nunca, durante esses mais de 30 dias, qualquer mŽdico o ter informado do estado de saœde do 5000 ou da evolu‹o da doena. O œnico contacto que o pessoal do hospital teve consigo, afirma, foi 5100 telefonaremÐlhe um dia ˆs 6 da manh‹ para o avisarem que o doente tinha morrido e que portanto 5200 os homens da agncia funer‡ria iam l‡ a casa tratar do enterro. ÒDe resto nunca nos disseram na 5300 daÓ, assegura. Recorda o dia em que levaram o almoo ao pai num tabuleiro onde se viam bocados de 5400 algod‹o recŽmÐutilizados. ÒPara alŽm da repugn‰ncia da situa‹o, aqueles bocados de algod‹o 5500 podiam ser ou n‹o, eu n‹o fazia a mais pequena ideia, focos de infec‹o. Podiam ter sido utilizados 5600 em sangue, eu n‹o fazia ideia nenhuma, porque outra das coisas com piada Ž que nunca ninguŽm 5700 deu instru›es sobre cuidados a ter ˆ hora da visita. Acabei por estar uma data de vezes a mexer 5800 em merdas que n‹o sabia se me faziam mal ou n‹o, e penso que o mesmo poderia ser dito por ou 5900 tras pessoas. A œnica coisa que faziam era daremÐnos ˆ entrada uma bata verde, que a maior parte 6000 das vezes estava espessa da sujidadeÓ.
A certa altura com as fun›es vitais paralisadas, o 6100 pai despediuÐse de quem tinha a despedirÐse e pediu que o deixassem morrer. N‹o podia mastigar, 6200 nem beber, as pernas inertes, incapaz de falar, entubado, sem controlo das fezes e da urina. 6300 ÒLiteralmente colado aos len-isÓ, na express‹o do filho, recusa que lhe dem o que quer que 6400 seja, incluindo remŽdios. Num desses dias, em pleno ms de Agosto, com a temperatura muitas 6500 zes a rondar os 40 graus do Ver‹o passado, num quarto fechado e hœmido, o filho do doente lem 6600 braÐse que deixaram ficar ao lado da cama do pai a sopa da hora do almoo, que ele uma vez mais 6700 recusara. ÒIsto passouÐse num dia. No outro, quando l‡ voltei, ainda a malga estava no mesmo 6800 s'tio, com o aspecto que se pode imaginarÓ, diz. Um doente assim poderia ter subscrito no Curry 6900 Cabral a frase que certa noite Lu's desenhou a ÒsprayÓ numa das paredes de infectoÐcontagiosas 7000 do Santa Maria, s'ntese de uma longa acumula‹o de frustra›es: ÒAqui matamÐse doentes com si 7100
E Lu's Ž um doente especial. Ele pode comparar a asistncia hospitalar portuguesa com outras, 7200 porque tem meios para se tratar no estrangeiro e esteve nos EUA e na RFA, onde regularmente vai 7300 ao Hospital Universit‡rio de Col-nia. ÒAtŽ nisso os mŽdicos portugueses reagem mal", acusa. 7400 ÒFicam furiosos quando percebem que nos fomos tratar ao estrangeiro". Contudo n‹o Ž apenas o 7500 facto de ter dinheiro que explica a sua determina‹o. "Designer", negociante de antiguidades, de 7600 corador, continuou a trabalhar depois de se ter tornado um portador doente, tal como continuou 7700 a fazer gin‡stica, que s- interrompeu quando lhe comearam a aparecerÊmanchas de Kaposi no cor 7800 po. Mas passada a surpresa inicial est‡ disposto a recomear treinando de fato de gin‡stica e 7900 vindo tomar banho a casa. Entre guerras e an‡lises vendeu uma propriedade no Alentejo, com 8000 um apartamento em Lisboa, comeou obras e para l‡ pensa ir viver, deixando a casa dos pais onde 8100 provisoriamente ficou, n‹o sem antes vencer resistncias de que hoje fala com ironia. De ÒjeansÓ 8200 e botas alentejanas, camisola de l‹ e uma energia impaciente mas nunca confusa Ñ mesmo quando 8300 se perde na procura das palavras que deseja Ñ jamais no seu discurso transparece isso que clas 8400 sifica de autocomisera‹o dos portugueses. ÒA autocomisera‹o Ž a pior coisa para um doente. Um 8500 doente, com sida ou sem sida, tem que lutar para viver, tal como qualquer pessoa tem que lutar 8600 para viver, mesmo quando n‹o est‡ doenteÓ. Lu's n‹o Ž caso œnico, quer em Portugal quer noutros 8700 pa'ses: h‡ doentes que, atravŽs de medidas de profilaxia adequadas, conseguem conviver com o 8800 v'rus em actividade v‡rios anos. Mesmo em Portugal h‡ casos que duram h‡ cinco anos. Mas s- por 8900 si ele desmente uma certa hist-ria da doena que Ž sintetizada pelo soci-logo Fausto Amaro 9000 direc‹o do Centro de Estudos Socioantropol-gicos da Sida, com esta frase: ÒAtŽ um simples seropositivo 9100 se sente condenado ˆ morteÓ.
Òƒ pior do que issoÓ, diz Carlos, um seropositivo que nunca esteve 9200 doente. ÒUma pessoa ter 20 ou 30 anos e saber que n‹o pode adoecer, porque se adoecer morre, Ž 9300 pior do que adoecer de vez e morrerÓ. Amigo de Ant-nio Varia›es, que em 1984 foi uma das primei 9400 ras pessoas a morrer de sida em Portugal e com quem teve uma rela‹o pr-xima, Carlos quis lo 9500 nessa altura fazer o teste, que deu seropositivo. De ent‹o para c‡ a hist-ria da sua vida Ž a 9600 hist-ria de alguŽm obcecado pela ideia de que n‹o pode sequer apanhar uma constipa‹o. Uma sim 9700 ples corrente de ar, passear na praia no Inverno, sair do banho desprevenido, s‹oÐlhe coisas in 9800 terditas. E este Ž o aspecto quase caricatural de um conjunto de problemas que v‹o dos mais 'ntimos 9900 aos que se prendem com a fam'lia, o emprego, os amigos. O resultado Ž uma instabilidade psico 10000
ƒ um cidad‹o tranquilo, essa criatura dia 5 10050 aio de 1989 sentada ˆ sua secret‡ria na bai 10100 lisboeta. Tem 31 anos, um emprego h‡ dezassete, habita um apartamento de quatro assoalhadas n 10200 arredores da cidade, um dia casou, teve uma filha, depois separouÐse, viveu outras vidas, co 10300 toda a gente. AtŽ mesmo o ardor que nessa manh‹ sente no brao n‹o Ž novidade, j‡ deu por ele 10400 rias vezes. Embora hoje e, no acto mesmo de coarÐse, pouse mecanicamente a esferogr‡fica, arre 10500 a camisa, se ponha a olhar. O que v? Nada de especial, a princ'pio. Mas de facto, que ser‹o e 10600 sa espŽcie de minœsculas manchas castanhas espalhadas na pele? Olha melhor. N‹o se trata exac 10700 mente de manchas, antes de uma rede de caroos duros, como cabeas de alfinete. Sarna? Talvez s 10800 na.
O mŽdico de cl'nica geral do Centro de Saœde envi‡ÐloЇ a um dermatologista, que lhe rece 10900 ta uma pomada. P›eÐna durante trs dias, sem resultado. Pelo contr‡rio, piorou. Nova consul 11000 Talvez seja seborreia. TambŽm n‹o Ž. Terceira consulta, e desta vez o dermatologista o que lhe pede 11100 que faa um conjunto de an‡lises. Faz. No dia 25 de Julho de 1989 recebe uma chamada do laborat- 11200 rio, Ž preciso repetir uma das an‡lises Ñ a da toma de sangue, precisamente. Estar‹o prontas, dizem 11300 lhe, a 31 de Julho de l989.
31 de Julho Ž o dia dos seus anos. Estava a pensar estrear um fato 11400 chegou a encomendar a fazenda, ficou de passar pelo alfaiate para tirar as medidas mas 11500 trapalhada das an‡lises, acabou por perderÊa vontade. Comeara mudanas em casa, pintar as parede 11600 , trocar de mob'lias, mas nada disso lhe apetece j‡. A suspeita cobre h‡ semanas o cora‹o deste ho 11700 mem de estatura mŽdia, porte retra'do, um rosto escrupuloso. MantŽm no entanto a mesa que reser 11800 vara num restaurante para jantar com os amigos. De madrugada, s‹o duas horas e n‹o consegue dor 11900 mir. LembraÐse que o laborat-rio est‡ aberto durante a noite, levantaÐse, apanha um t‡xi para 12000 cidade, entra no nœmero 30 da rua Rodrigues Sampaio, pergunta ˆ empregada se est‹o prontas a 12100 an‡lises. NinguŽm lhe disse que ia ser submetido ao teste da sida, que em Portugal n‹o pode se 12200 feito sem consentimento da pessoa. O medo tem as doenas do medo, e tambŽm Jorge nunca quis saber se er 12300 ou n‹o seropositivo. Mas desta vez ele n‹o tem dœvidas sobre o destino das duas colhe 12400 tas de sangue que lhe fizeram. Abre o envelope, e l‡ est‡: Ž portador do v'rus de imunodeficin 12500 cia humana, vulgo VIH. H‡ coisas que se conjecturam apenas para ganhar tempo. "Quer dizer 12600 tenho sida?", pergunta ˆ mulher que acaba de lhe entregar as an‡lises. "Se n‹o tem, est‡ a caminh 12700 de ter", responde ela.
Como reagem as pessoas quando sabem que est‹o infectadas? "A reac‹ 12800 inicial Ž geralmente de p‰nico", responde o psiquiatra Nuno FŽlix da Costa, que desde h‡ anos d 12900 apoio a v'timas de sida. Mas a pouco e pouco, segundo tem verificado, cada um vai integran 13000 doena no seu quotidiano e entraÐse num processo que Ž uma espŽcie de negocia‹o permanente com 13100 morte: conjecturar projectos, proibir o corpo, bloquear o tempo.
ƒ uma boa s'ntese para Lu's 13200 outro doente que pediu para n‹o ser identificado. Em Maro de 1988 disseramÐlhe ser portador do v' 13300 rus, depois de an‡lise feita tambŽm sem o seu conhecimento. ÒQuando soube dos resultados pedi a 13400 mŽdico que n‹o dissesse nada ˆ minha fam'lia, mas no outro dia j‡ toda a gente sabia l‡ 13500 casa.Ó A hist-ria de Lu's Ž uma corrida contra a morte, para ele insepar‡vel da luta contra 13600 sistema hospitalar portugus. ÒA assistncia mŽdica prestada em Portugal aos doentes com sida 13700 uma palhaadaÓ, afirma, sem grande embaraado. Internado uma primeira vez no Hospital de Sant 13800 Maria para tratamento a uma toxoplasmose deixaramÐno trs dias numa maca no corredor da enferma 13900 ria ˆ espera de vaga. ÒEm nenhum desses dias consegui dormirÓ, diz. ÒO pessoal do hospital passa 14000 as noites a apagar e acender luzes e a falar em voz alta". Descreve com pormenores a primeir 14100 pun‹o lombar que lhe fizeram, para extrac‹o de l'quido cefalorraquidiano destinado a an‡lise d 14200 meningite. No auge da dor, a agulha encravada no canal medular, procurava aÊm‹o de uma enfermei 14300 ra que lhe gritava para se agarrar ˆ almofada. As suas acusa›es a hospitais e pessoal cl'nic 14400 s‹o retribu'das por profissionais de saœde que o consideram Òum doente dif'cilÓ, para utilizar 14500 express‹o de uma enfermeira. Mas a verdade Ž que essas acusa›es s‹o partilhadas por outras pes 14600 soas.
O filho de um doente de 61 anos que, no dia 14 de Agosto de 1989, morreu com sida no pavi 14700 lh‹o F do Curry Cabral, traa um panorama tambŽm intensamente cr'tico da assistncia presta 14800 ao pai ao longo do ms em que l‡ esteve. Uma das coisas que mais o surpreendeu, diz, foi o fac 14900 de nunca, durante esses mais de 30 dias, qualquer mŽdico o ter informado do estado de saœde do pai 15000
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