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Estamos a ficar iguais aos crescidos!

por

João César das Neves naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Jornalista  

Lembra-se das primeiras eleições livres em Portugal? Da primeira vez que viu televisão privada? O momento é também histórico: temos a nossa primeira OPA hostil de grande impacto. Aquilo que só líamos nas notícias internacionais agora vemos aqui pertinho. Vamos assistir em directo a todos os percalços e emoções de uma grande luta bolsista. Estamos a ficar iguais aos crescidos!

É preciso dizer que isto quase não acontecia.

Antes de 1986 (7 de Novembro, para ser exacto) nem sequer havia OPA em Portugal, numa Bolsa que mal vegetava. A entrada na CEE, a liberalização e prosperidade do tempo de Cavaco animaram finalmente o mercado de capitais. Mas houve que esperar ainda mais alguns anos (até 26 de Abril de 1989, para ser meticuloso) para que existissem investidores e empresas sérios e influentes na Bolsa.

Só com as privatizações, e a decisão de as fazer por venda livre de acções, é que o mercado de capitais deixou de ser uma brincadeira para financeiros e passou a ter algumas relevância na vida concreta da economia portuguesa. Apareceram na Bolsa boas empresas, como a Portugal Telecom em 1995 (a 1 de Junho para ser preciso) e isso atraiu investidores comuns. A Bolsa passava a ser um mercado verdadeiro.

Claro que continuou microscópica. Por razões históricas e culturais, a banca é o nosso canal financeiro. A esmagadora maioria da poupança e do investimento nada tinham ou têm a ver com a Bolsa. Aliás, ela é controlada pelos bancos, como os seguros, leasing, factoring e toda a actividade financeira do País. Os índices bolsistas continuam, por isso, irrelevantes e alheios à dinâmica económica e os analistas das cotações continuam a fazer muito barulho por coisa nenhuma. Mas ao menos passou a haver um mercado de capitais que, embora pequenino, tem alguma presença.

Ou melhor, tinha. Porque um dia (3 de Julho de 2001, para ser minucioso) um ministro das Finanças reparou que havia benefícios fiscais na Bolsa, o que era imoral e injustificado. Tirou os benefícios fiscais e... acabou praticamente com a actividade bolsista. Com a actividade e com os impostos que recebia dessa actividade. Desde então temos ainda a casca de uma Bolsa, um simulacro, mas nada que realmente interesse. Até agora!

Será que esta OPA da Sonae sobre a Portugal Telecom realmente interessa? Bem, menos do que se diz. Os jornalistas vão andar animados com cada pormenor do longo processo, mas, de facto, no real funcionamento da economia, o resultado não será muito relevante. As comunicações constituem um bem essencial nos dias que correm. Por isso mesmo existe uma autoridade pública, Anacom, que regula o sector. A mudança de mãos de uma grande empresa como a PT não pode assim afectar, no essencial, o dia-a-dia dos consumidores portugueses. O que está em causa aqui, portanto, são efeitos de segunda ordem. Aliás, a OPA vai desviar a atenção de assuntos muito mais decisivos para o futuro nacional, como a redução do défice, a reconversão dos têxteis, o aumento da competitividade, etc.

Os tais efeitos, além de secundários, nem sequer são claros. Há algum consenso em que a PT anda mal gerida. Aliás, o simples anúncio de OPA é disso sinal. Assim, qualquer que seja o resultado, são de esperar melhorias na saúde desta empresa, o que é importante pela dimensão e influência que ela tem. Mas quanto à magna questão da concorrência no sector, as coisas são menos claras. Há quem diga que a competição vai aumentar, mas também quem tema as intenções monopolizantes da jogada. Uma reestruturação destas tem sempre efeitos imprevisíveis. Ao menos, deve desaparecer a infantil golden share do Estado.

No entanto, uma OPA desta dimensão ultrapassa o mercado particular. O que está em causa, aquilo que traz toda a emoção, é a perturbação no equilíbrio entre os grandes grupos económico-financeiros do País.

Isso é muito menos influente para a saúde da economia nacional do que se diz. Os conselhos de administração luxuosos parecem e julgam-se influentes, mas são os milhões de agentes que, na actividade dos mercados, determinam a realidade. Num país desenvolvido e num mundo globalizado, os grandes são muito menores do que julgam. Mas não deixam de ser importantes.

Afinal, o mais influente desta OPA é que, no meio da crise e do desânimo, apesar das maleitas e dos atrasos, durante meses andaremos a discutir economia real, como os países ricos. Isso é bom! Até nos estamos a parecer com os crescidos!


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