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por Miguel Gaspar
Pedro Tadeu é o herói da semana. Mesmo a elite blogosférica tirou o chapéu ao mais assumidamente tablóide dos diários portugueses. O 24 Horas é um actor à medida da desconfiança em relação à justiça que se apoderou da sociedade portuguesa. Desconfiança que resulta da própria exposição mediática da justiça. A mitologia do juiz redentor, alimentada por magistrados-ícone como De Pietro ou Gar-zón, encarnou, em Portugal, no juiz Rui Teixeira. Em vez de Mãos Limpas tivémos a Casa Pia. E a operação desencadeada esta semana, culminando na captura de um-computador-um, nem a aura da ameaça transportava. O ataque ao 24 Horas exprimia apenas impotência, um canto do cisne: a aliança entre a justiça e os media conheceu o seu H5N1?
E o tablóide, portanto, o tablóide que desafia os critérios da imprensa séria, no qual o capricho da pseudo- -estrela de televisão frívola merece toda a primeira página, faz-se paladino da liberdade de imprensa. Ironia, a sua redacção mostra as suas mãos limpas ao procurador.
Onde estão, então, as fronteiras da imprensa? Uma pergunta que foi dirigida ao próprio director do 24 Horas, num Clube de Jornalistas emitido esta semana. O lugar comum consiste em dizer que a imprensa de referência vive uma crise e que a imprensa popular floresce.
As fronteiras entre tablóide e referência não são vãs e continuam a fazer sentido. Mas o mundo dos jornais não é estanque. E acompanha a mudança de uma outra fronteira, a que separa a coisa privada da coisa pública. O domínio do privado tornou-se público e, ao mesmo tempo, o domínio do público tornou-se privado. Gestos como o de Margarida Marante, nas últimas semanas, tornaram-se comuns. A televisão gerou e amplificou uma cultura confessional. Oprah Winfrey é uma pioneira que se tornou paradigma desta mudança. Não é por acaso: essa cultura confessional acompanha o crescimento das mulheres como público dos media e dos espaços mediáticos dedicados às mulheres. Constatado o paralelismo, estaciono nesta esquina, que daqui em diante é com os sociólogos. Induzida em grande parte pelos media, essa cultura confessional transforma a forma como nos olhamos enquanto pessoas privadas e como olhamos as pessoas públicas. Quando François Mitterand revelou aspectos impublicados da sua vida, antes de morrer, ele transformou o peso da dimensão privada da figura pública: o político prescinde da distância para exercer o poder e esconde-se na álibi da proximidade permitida pela exposição do privado. As fronteiras na imprensa mudam, muitas vezes por factores exteriores ao próprio meio.
Consequência desta mudança complexa é que o exercício do poder político e económico tornou-se menos público, ou quase clandestino. É por isso que as fronteiras entre tablóide e referência permanecem válidas. Mas continuam confusas.
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