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Libertinagem ou liberdade, eis a questão da encenação assinada por Ricardo Pais para o clássico D. João, de Molière. É com ela que o espectador "sai de cena", literalmente, já que a projecção no mito do sedutor livre, ou libertino, ainda que possa ser apenas parcial, se afigura quase inevitável. A peça estreia-se hoje no Teatro Nacional S. João (TNSJ), no Porto, onde fica até 5 de Março.
No princípio era o prazer. Foi por ele que D. João "viveu". E no fim? Como interpretar a morte "orgásmica" que Ricardo Pais lhe oferece, consumido pelas chamas do inferno? Será uma apologia da fuga para a frente, da confiança cega no instinto, da falta de escrúpulos e do oportunismo? Certamente que não. No espectáculo de Pais encontram-se poucas respostas, ao mesmo tempo que se reavivam muitas das perguntas inscritas no texto. Uma coisa é também o seu contrário, como se constatará do princípio ao fim.
Esse momento em que D. João se esvai, gemendo, para dentro de uma das portas/janelas/sepulturas de que se reveste a estrutura cenográfica de João Mendes Ribeiro (ver foto) configura a palavra ausente, a resposta que falta. É o momento em que Pais enfia no buraco da agulha - na campa ou na cama? - a linha com que se cosem as nossas dúvidas, a mesma linha que se deteve a esticar durante todo o espectáculo.
D. João (Pedro Almendra) surge numa figuração imponente, de casaco dourado, brinco na orelha e sapatos de tacão metálico, contrastando com Esganarelo (Hugo Torres), seu servo e "consciência crítica" diplomática, vestindo farda azul, neutra, como a generalidade das personagens. D. João é, por assim dizer, o "rei do xadrez", o homem que, numa sociedade temente a Deus, não acredita em nada a não ser em si e na aritmética, movendo as peças a seu gosto, não por quadrados pretos e brancos, mas pelos bocados de madeira que compõem aquele tabuleiro irregular. É também, noutra leitura, e de acordo com uma túnica fogosa que o figurinista, Bernardo Monteiro, lhe destina, a representação do antiCristo.
Embora vão já longe os tempos de Luís XIV e, portanto, de uma monarquia assente na religião, as premissas, as questões, os contrastes e as contradições formulados por Molière continuam actuais, e se há virtude - palavra-chave da moral tradicional - no espectáculo de Ricardo Pais é a de o demonstrar sem forçosamente seguir os passos do dramaturgo francês. É, aliás, o próprio encenador quem refere: "A 'mesmidade' é uma das coisas mais odiosas em teatro, e o teatro, como sabemos, reproduz incansavelmente uma série de convenções". Leitura semelhante poderá ter, de resto, uma das frases marcantes da peça: "A constância só é boa para os ridículos". E é aí, por paradoxal que pareça, que tudo se encaixa e os universos de ambos se tocam.
Pleno de elementos trágicos, desde logo o facto de D. João não conseguir amar para lá da posse do corpo, que reflecte antes disso o desejo da sedução, do emprego da palavra, o clássico de Molière está, porém, posto na gaveta das comédias. Mais uma contradição, dir-se-á. Para Ricardo Pais, no entanto, foi mais uma motivação: "O que me levou a fazer esta peça foi essa contradição tremenda entre a moral e o desespero. E acho muito curioso que o desespero esteja ao serviço de uma comédia, isto é, que uma boa parte do espírito de sobrevivência que caracteriza a comédia seja, neste caso, o espírito de desespero eufórico e de insatisfação total". Mas é, e sente-se.
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