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Recorrer à agência matrimonial na ternura dos 50 para combater a solidão

 

São namorados como outros quaisquer. Ele diz piropos, que a fazem virar o rosto, envergonhada. Ela sorri, e comenta "Ele é assim descarado...". Andam na casa dos 50 anos, já passaram por outros relacionamentos, têm filhos e agora uma história comum, que começou há três meses. Que começou com a apresentação, marcada por uma agência matrimonial.

Glória e Licínio não dizem os nomes verdadeiros nem querem fotografias. Sobretudo Glória, que ainda não disse ao filho nem à família que tem um namorado novo. Receia os comentários, que prevê maldosos. Afinal, saiu de uma viuvez recente e, se bem que tenha consciência de que fez "tudo o que podia" ao marido, não quer anunciar ao mundo o namoro com o Licínio, porque quer-se "preservar durante um tempo".

Glória e Licínio já têm uma história pronta para contar quando assumirem o namoro. Não vão dizer que o relacionamento começou num escritório da agência "Novo Rumo", ainda que o encontro tenha particularidades curiosas. Como o facto de já ter sido a quarta apresentação de Glória, que esteve para não ir, e de o Luís ter também chegado atrasado. "Lá tinha de ser", garante ele.

Expansivo nas demonstrações de amor para com Glória, Licínio é mais contido nas razões que o levaram a procurar a ajuda de uma agência matrimonial. "Estava farto de bater com a cabeça na parede", diz. Veio de uma vida marcada, no que diz respeito a mulheres, e admite, sem vergonha, que na primeira vez que procurou ajuda chorou ao relembrar os desencontros por que passou. Mas agora está tão contente com a Glória que garante "Nunca tive mulher assim na vida".

Se calhar, é por isso que Licínio gostaria muito de casar e assumir o namoro. Mas Glória receia "Eu nunca falo no futuro. Só no presente". Afinal, só o facto de namorar é mais do que ela queria. Procurou a agência, com o apoio do irmão mais velho, porque queria um amigo, "mais nada". Só alguém para a levar a passear: "Estava longe de iniciar uma relação. Só precisava de alguém que me ajudasse a ultrapassar isto". Isto é a solidão que se instalou na sequência da morte do marido. Da cama para o sofá, andava a antidepressivos. A vida agora é diferente. "Eu é que sou a boa terapia, não sou, filha?", diz ele.

A primeira reacção de Glória, perante a perspectiva de recorrer à agência sugerida pela cunhada, não foi a melhor "Está fora de questão eu pagar para arranjar um homem". Mas lá foi. Porque, como disse já num almoço de amigos, como que a levantar a lebre: "Está fora de questão viver sozinha." Teve uma primeira experiência menos agradável na agência e teve de ir à quarta para encontrar o Licínio que, lá admite, "se calhar estava guardado" para ela. Usam ainda as alianças do passado, "porque dá outro respeito", e não há ainda planos para adquirir umas novas. Afinal, diz Glória, "é tão bom namorar toda a vida...".


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