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Violência no delta do Níger já é comparável à da Chechénia

 

Violência no delta do Níger já é comparável à da Chechénia

Detido há quase cinco meses numa prisão nigeriana, Mujahid Dokubo-Asari poderá passar rapidamente de ilustre desconhecido a celebridade internacional. Para isso, basta-lhe concretizar a ameaça que tem vindo a repetir nas últimas semanas, propondo-se atacar a indústria petrolífera da Nigéria ao longo deste mês, tendo como objectivo provocar uma redução de 30% nas exportações de crude daquele país africano.

Normalmente, este tipo de ameaça dificilmente seria levada a sério. Mas o facto de ela ser proferida por alguém que é suspeito de já ter feito desaparecer um petroleiro - sem que até hoje se saiba do seu paradeiro - aconselha a que se preste alguma atenção a pessoas como Mujahid Dokubo-Asari.

Especialmente quando se observam as estimativas feitas por companhias petrolíferas com a dimensão da Royal Dutch Shell, a empresa que é responsável por quase metade dos 2.2 milhões de barris que são diariamente extraídos na Nigéria. E que transformam o país num dos maiores fornecedores do mercado norte-americano que ali adquire cerca de 10% daquilo que consome.

Só em 2004, a Shell foi obrigada a reconhecer prejuízos da ordem dos mil milhões de euros nas suas operações nigerianas por força dos roubos e dos ataques perpetrados por alguns dos 130 'gangs' que actuam no delta do Níger, a principal região petrolífera de um país que vai oscilando entre a democracia e as ditaduras militares. Sem que nenhuma destas experiências lhes permitam fazer esquecer a fracassada tentativa de secessão protagonizada pelo Biafra nos Anos 60 e que ainda hoje inspira algumas das 250 etnias que compõem a Nigéria.

O que também ajuda a explicar o pesadelo em que estão mergulhar as companhias petrolíferas que actuam no delta do Níger, onde têm sido vítimas de sucessivos ataques, sequestros e extorsões que já levaram Abuja a reduzir a sua produção em cerca de 9% ao longo de 2005.

Uma situação que afecta tanto a Royal Dutch Shell como a Eni-Agip, a Total, a Exxon-Mobil, a Chevron ou a Daewoo. Aliás, e na véspera de terem sido libertados os quatro trabalhadores da Shell que tinham sido sequestrados a 11 de Janeiro, a Daewoo viu o seu quartel-general em Port Harcourt ser atacado por desconhecidos, que muitas vezes disfarçam a sua actuação com reivindicações de carácter político (ver gráfico).

Sem que as autoridades nigerianas tenham, apesar das forças militares que já enviaram para o terreno e das garantias dadas pelo Presidente Olusegun Obasanjo, conseguido por travar as actividade destes 'gangs', comandados por verdadeiros "Senhores da Guerra". Como Mujahid Dokubo-Asari.

Nascido há 41 anos, no seio de uma família católica, filho de um juiz e de uma doméstica, Asari, que foi baptizado com o nome de Dokubo Melford Goodhead Junior, teve um percurso perfeitamente normal até ao início dos anos 90, quando desistiu do curso de direito.

Nessa altura, tudo mudou Dokubo Melford Goodhead Junior converteu-se ao islão, mudou o nome para Mujahid Dokubo-Asari e assumiu-se como activista Ijaw, a etnia dominante no delta do Níger. Populações que vivem no limiar da pobreza, sem beneficiar das receitas de petróleo proporcionadas pela região.

A partir daí, o seu percurso Asari confunde-se com a instabilidade no delta do Níger, onde os Ijaw gostariam de protagonizar uma história inversa à dos Igbo no Biafra.

Líder de uma autodenominada Força Popular dos Voluntários do Delta do Níger, Asari tem sido responsável por dezenas de sequestros e atentados que já provocaram 176 interrupções no escoamento normal do petróleo nigeriano desde 2003.

Talvez, assim, se compreendam também melhor as razões que levaram o responsável de uma empresa de segurança que trabalha na Nigéria a declarar recentemente à revista alemã Der Spiegel que a situação no delta do Níger é, actualmente, muito semelhante à da Chechénia.

Exagero? Talvez não. Sobretudo se pensarmos nos montantes que podem ser obtidos por via da venda paralela dos 50 mil barris de petróleo que todos os dias desaparecem do circuito oficial. E que permitem a pessoas como Asari alargar as suas actividades, beneficiando de uma corrupção endémica na Nigéria.

Resta saber os caminhos que serão percorridos até 2007, altura em que é suposto realizarem-se as próximas presidenciais num país que é absolutamente crucial para estabilidade de uma região que contempla alguns dos novos produtores do mercado petrolífero Camarões, Chade, Guiné Equatorial, São Tomé e Príncipe ou República Centro-Africana.

Olusegun-Obasanjo, o antigo ditador militar que se converteu à democracia, regressando ao poder em 1999, não pode, em princípio, recandidatar-se a um terceiro mandato. E aparentemente, não há um sucessor à vista que o possa substituir.


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