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Primeira encíclica de Bento XVI acolhida com grande entusiasmo

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Correspondente em Roma  

A reacção do mundo católico e laico - e de um modo particular dos jornais de esquerda - surpreendeu a Itália pelo enorme e inesperado entusiasmo com que acolheu a primeira encíclica do pontificado de Bento XVI, uma figura ainda difícil de aceitar como sucessor do "amadíssimo" João Paulo II.

Sem esconder a surpresa, todo o espectro político italiano, incluindo o centro-esquerda, aplaudiu sobretudo a segunda parte da encíclica, que indica, como diferença fundamental do cristianismo, a distinção "entre o que é de César e o que é de Deus", explicitamente assumida pelo Papa Ratzinger.

O líder do centro-esquerda, Romano Prodi, católico praticante, considerou "belíssimo que a primeira encíclica deste Papa seja dedicada à justiça, ao amor e à caridade".

A pouco mais de dois meses das eleições, os católicos de esquerda, que tinham reagido com pouco entusiasmo à eleição de Ratzinger, devido ao seu conservadorismo teológico, ficaram surpreendidos e felizes - sobretudo com a citação do Papa de que "a Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível. Não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado." E ainda "A actividade caritativa cristã deve ser independente de partidos e ideologias."

Doutrina social da Igreja

A encíclica Deus Caritas Est não deixa, contudo, de defender o papel fundamental da Igreja na sociedade contemporânea, combatendo as injustiças. "A justa ordem da sociedade e do Estado é dever central da política. Um Estado, que não se regesse segundo a justiça, reduzir-se-ia a uma grande banda de ladrões", afirma o Papa citando Santo Agostinho. Bento XVI relança assim a doutrina social da Igreja, diante do sonho falido e desaparecido do marxismo, como uma "indicação fundamental" para enfrentar a "difícil situação em que hoje nos encontramos por causa também da globalização da economia".

Segundo o jornal Il Manifesto, diário pró-comunista, nesta encíclica emerge uma afirmação muito importante " a construção de uma sociedade justa não é dever da Igreja mas da política. Hoje, no entanto, terminadas todas as ideologias do progresso marxista, a Igreja não pode ignorar ou recusar a justiça social. Pelo contrário, essas são áreas onde tem muito a dizer, diante dos problemas da globalização."

"Morto um sonho, nasce outro, e assim, no lugar da utopia marxista, surge uma utopia renovada - a do amor -, concreta, ancorada na doutrina social da Igreja, que na era da globalização resta como a indicação válida, o ponto de referência fundamental", escreve o Manifesto.

"Um texto que na primeira leitura surpreende pela sua intensidade humana", afirma a católica e democrata de esquerda Livia Turco, membro do Comité central do ex-Partido Comunista Italiano no ex-jornal oficial L'Unità. "É como se Bento XVI tivesse querido, antes de mais, pôr-se em sintonia com a humanidade profunda das pessoas. Não do Homem, mas das pessoas em carne e osso. É como se Bento XVI não quisesse ensinar algo, mas partilhar o mais profundo da humanidade, nas suas fraquezas e nas suas contradições."

Em Portugal

Também no nosso País a receptividade tem surpreendido pela positiva. Guilherme d' Oliveira Martins salienta a riqueza do texto e a forma como refere a "dimensão do outro". "A relação entre eros (amor entre homem e mulher) e agape (o amor cristão que se doa ao outro) é vista numa perspectiva de complementaridade. Por outro lado, a relação com o próprio corpo é encarada de uma forma libertadora. A encíclica é um desafio ao aprofundamento dos conceitos de amor cristão e de justiça". Para o presidente do Centro de Reflexão Cristã - instituição que vai relançar esta semana a encíclica Gaudium et Spes ( 1965) - a encíclica Deus Caritas Est realça a mundividência cultural de Bento XVI.

Manuela Silva, presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, defende que é indispensável olhar para as implicações práticas da leitura da primeira encíclica de Bento XVI. "Na linha da tradição das primeiras comunidades, o Papa afirma que não é tolerável que continue a haver, nas nossas comunidades, pessoas a quem falta o indispensável para uma vida digna", afirmou. Com LL


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