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Um milhão de votos num candidato apartidário; 2,7 milhões num Presidente da República suprapartidário. Os partidos estarão infectados com alguma "peste" que afaste os cidadãos da militância e torne os eleitores insensíveis às suas indicações sobre os candidatos? O fenómeno resume-se à especificidade da escolha para o Palácio de Belém, como admitem os socialistas Almeida Santos e Carlos Zorrinho, ou só não retira todo o monopólio da captação de voto aos partidos porque não há candidaturas independentes nas legislativas, como suspeita o social- -democrata Pacheco Pereira?
Os actuais partidos políticos, concordam todos, começam a estar desfasados da sociedade actual e têm de reflectir sobre o seu papel no futuro. "A figura tradicional do partido não preenche nem satisfaz a sociedade de hoje", reconhece Almeida Santos. Os novos órgãos de comunicação social e as potenciali- dades de informação da Internet permitem que os cidadãos estejam "mais informados do que há 30 ou 40 anos e que queiram ter uma participação política que não seja só a inscrição num partido".
Também Carlos Zorrinho, que refuta com um sorriso qualquer teoria de um hipotético "golpe de Estado constitucional", reconhece que "a sociedade está a mudar" e começa a verificar-se um desajuste com "a representação democrática".
Pacheco Pereira vai mais longe e sustenta que, "ao contrário daquilo que as pessoas dizem, os partidos estão a sofrer a usura do seu poder e hoje são periféricos em relação à sociedade portuguesa", sobretudo por duas razões. Em primeiro lugar, "pelo aparelhismo, por se fecharem sobre si próprios, por não permitirem carreiras de qualidade"; mas também pelo curto-circuito na "trilogia do poder" municipal, uma vez que "os interesses económicos lidam directamente com as autarquias".
A independência do cidadão eleitor é irreversível? O que devem fazer os partidos para tentar recuperar a sua antiga influência?
O pessimista Almeida Santos entende que não será fácil, admitindo mesmo que "a fórmula dos partidos", conforme os conhecemos actualmente, "tem tendência, embora lentamente, para o esgotamento". Certos teóricos, lembra o presidente do PS, têm sustentado que as "ágoras [a praça helénica onde os cidadãos discutiam política e se tornou símbolo da democracia ateniense] virtuais dos tempos modernos", que surgem na Net, substituirão aos actuais parlamentos.
O histórico socialista admite perfeitamente que, com a facilidade de contactos, "uma ideia generosa pode fazer caminho através da Internet e juntar um bilião de pessoas". Mas, mesmo sem descurar essa via, "até agora ainda não se inventou uma democracia sem partidos".
O seu camarada Carlos Zorrinho tem uma perspectiva mais optimista, advogando que no futuro terá de se cruzar a visão global dos partidos, enquanto "pivots de modelos de sociedade", com as causas representadas pelas pessoas. Em suma "conciliar projectos e causas" será o futuro da instituição partidária.
Mais radical, Pacheco Pereira entende que "os partidos têm quase de se dissolver e arrancar de novo", deixando de lado "a pretensão de controlar" toda a acção política e "de-senvolvendo uma actividade conforme com os tempos modernos". Actualmente, sublinha, "não são eficazes nem como instrumentos de pedagogia cívica, nem como máquinas eleitorais".
No fundo, "acabam por ser só máquinas de influência e colocação de empregos". E também de poder. Mas, na sua leitura, "em grande parte, quem manda nunca aparece à luz do público e nunca é escrutinado assessores, gabinetes, escritórios de grandes advogados, empresários". E a Maçonaria? E a Opus Dei? "Há casos pontuais de pequenas carreiras e de algumas protecções, mas nunca terão um poder comparável ao dos grandes grupos económicos, os grandes lobbies, os grandes patrões da comunicação social."
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