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Todas as hipóteses estão em aberto. Manuel Alegre admite renunciar ao cargo de deputado, que ocupa há mais de três décadas, cessando simultaneamente funções como vice-presidente da Assembleia da República, para que foi indicado pelo PS, embora sem abandonar a militância no partido. O poeta, que foi o segundo candidato presidencial mais votado na eleição do dia 22, mantém-se em reflexão, ainda sem opinião definitiva. "É uma decisão pessoal que irei tomar", garantiu aos seus apoiantes, com quem ontem esteve reunido num hotel de Lisboa.
Na reunião, Alegre ouviu as mais diversas opiniões sobre este assunto - que divide os seus ex-mandatários e ex-coordenadores distritais - enquanto dava luz verde à continuação do movimento "alegrista". Um movimento que, como o DN antecipou, se propõe intervir como "fórum de reflexão" na vida pública, em áreas tão diversas como o combate à corrupção e a desertificação do território, a dignificação da justiça, a igualdade de género e a defesa da língua portuguesa.
A formalização deste "movimento de cidadania" mereceu unanimidade das personalidades que integraram a Comissão Política e as estruturas distritais da campanha. A autarca socialista Ana Sara Brito, também com assento na Comissão Nacional do PS, será a coordenadora provisória do movimento, depois de ter sido a directora operacional da candidatura de Alegre.
"Este movimento não vai interferir na vida interna de nenhum partido político", assegurou Alegre aos jornalistas, no fim da reunião, repetindo o que dissera horas antes, à porta fechada. Este encontro serviu também para analisar os resultados eleitorais, com o poeta a sublinhar a "grande incompreensão" revelada pela generalidade dos analistas, que mesmo após a contagem dos votos persistem em ignorar o "resultado histórico" de uma candidatura que em três meses criou um "movimento cívico de amplitude nacional".
Opiniões divididas
Se a institucionalização do movimento não deixou dúvidas a ninguém na sala, já a hipótese de Manuel Alegre abandonar o Parlamento dividiu opiniões. "Ele deve manter-se em São Bento, o que lhe dá uma grande visibilidade. Em movimentos como este, a visibilidade é fundamental", disse ao DN o advogado António Neto Brandão, que foi mandatário de Alegre por Aveiro. Opinião oposta tem o ex-mandatário por Évora, José Luís Cardoso "É preferível renunciar ao lugar de deputado. Isto porque várias das teses do manifesto eleitoral [de Alegre] contradizem o programa que o PS tem vindo a pôr em prática. Manuel Alegre não poderá entrar em contradição com os seus próprios princípios em nome da disciplina partidária na Assembleia da República."
O histórico socialista Edmundo Pedro, que fez parte da Comissão de Honra de Alegre, também defende que o escritor deve cessar funções no Parlamento "Ele terá de assumir posições que colidam com o partido. Vai-se desgastar-se inutilmente. Se estiver fora de São Bento, terá maior liberdade de movimentos."
Abílio Hernandez, que foi mandatário por Coimbra, entende por sua vez que o papel de Alegre "ultrapassa em muito a circunstância específica partidária". Mas, numa das intervenções escutadas com mais atenção na sala, este professor universitário sem filiação partidária apelou ao vice-presidente da Assembleia da República para não rasgar o cartão de militante "Como cidadão, preciso de Manuel Alegre no PS, onde nunca entrarei." Segundo apurou o DN, a desfiliação é um cenário que Alegre não equaciona.
O ex-deputado socialista José Niza, que também esteve na Comissão Política do candidato, aconselha-o a permanecer em São Bento. "Ele deve ficar. Nada o obriga a sair", disse ao DN este antigo parceiro de canções de Manuel Alegre, que musicou muitos dos seus poemas.
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