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por
Maria José Nogueira Pinto
Vereadora da CML
No dia 22, os portugueses elegeram o Presidente. Cavaco Silva chega a Belém, à primeira volta, para inaugurar um novo ciclo. Novo por diversos motivos, um dos quais certamente será o de ser o primeiro Presidente eleito que a esquerda não produziu.
Ao longo da noite, os representantes das esquerdas foram falando da necessidade de uma "reflexão", enquanto se fazia sentir o efeito das presidenciais nos diferentes partidos e à medida que os resultados se consolidavam.
O Partido Socialista, acusado de ter impedido uma estratégia eleitoral de unidade da esquerda e a braços com duas candidaturas - uma oficial, outra oficiosa -, sofre uma aparente implosão.
Aparente porque embora o PS, tal qual o conhecemos na sua génese e na sua história, tenha desaparecido no dia 22, o resultado de Manuel Alegre permite-lhe constituir-se como fiel depositário da matriz socialista, republicana e laica, da memória do partido ideológico e resistente. Aparente também porque José Sócrates, que traçou com grande habilidade um caminho que trilhou com crescente reforço da sua liderança - ao disputá-la numas directas concorridas e não num simples congresso, ao obter em legislativas a primeira maioria absoluta do PS -, enterra o passado sem crise nem machado de guerra e vira o partido para um rumo social-democrata e reformista, sendo previsível que muitas das medidas do Governo - se racionais e salutares - encontrem respaldo em Belém.
O PSD terá previsíveis dificuldades em gerir, na oposição, os próximos tempos. Não por ter como Presidente Cavaco Silva, mas pela viragem do PS, o voluntarismo de José Sócrates e as políticas do seu Executivo.
O PCP parece querer deixar cair os resquícios estalinistas que tanto o caracterizaram e reveste-se de um afável marxismo-leninismo na pessoa de Jerónimo - o único candidato que prescindiu do apelido nos cartazes - que se constituiu, de facto, como uma mais-valia de marketing político com efeitos nos (bons) resultados obtidos.
O BE confirma nesta votação ser tão só um epifenómeno prolongado no tempo, mas sempre e só um epifenómeno, gavetão de descontentes, síntese desconstrutivista de uma realidade que nunca geriu e pela qual nunca se responsabilizou. Um mero exercício dialéctico.
Finalmente, mas não menos importante, o CDS-PP cujo apoio à candidatura de Cavaco Silva, em detrimento de um candidato próprio, é facilmente quantificável, traduzindo-se na vitória à primeira volta, mostrou ter optado por uma estratégia avisada, que não só não obstou como foi decisiva para colocar em Belém, pela primeira vez desde 1975, um Presidente não oriundo da Esquerda.
E, mais importante, tem nesta reengenharia dos espaços partidários, uma oportunidade de afirmação clara como o Partido de Direita Democrática.
Foi tudo isto que pensei naquela noite - que alguma coisa mudava.
Não tanto por ter sido Cavaco Silva o eleito, mas porque de algum modo as esquerdas tinham inviabilizado a Esquerda, ao optarem por estratégias próprias em nome de interesses mais imediatos, versus o habitual instinto de sobrevivência colectiva que sempre os caracterizou.
Igualmente novo e interessante o acentuar de duas tendências Tornou-se claro o aumento do descontentamento inorgânico, em parte pela crise político-partidária, em parte pelo enfraquecimento de uma cultura de associativismo capaz de enquadrar as manifestações de cidadania.
É esse descontentamento inorgânico que tem beneficiado o BE e que nestas eleições foi em parte canalizado para o candidato Manuel Alegre. Porque este candidato se lança não contra o PS, mas apesar do PS; porque assim se liberta da tutela do partido; porque pode apelar ao voto dos cidadãos para lá do voto partidário; porque sobrevive a não ter máquina nem apoio aparelhístico, o que é obra nos tempos que correm.
Fez como escreveu "há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não...". Para mais de um milhão de portugueses, resistiu e disse não. O que fará agora com este capital de votos e esta representação matricial, não sei.
Tornou-se igualmente claro que por esta razão e ainda pela crescente complexidade da situação do País, o voto flutua com mais facilidade. Trocam-se as ideias pelos resultados.
Parece contraditório? Não é. Mas estou de acordo, merece reflexão.
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