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"Tenho estudos mas não tenho emprego porque sou cigana"

 

Helena está cansada de desilusões. Aos 29 anos e com com o 8.º ano de escolaridade não consegue arranjar emprego. É mais um dos casos complicados de inserção que a Paróquia da Areosa, no Porto, e a Fundação Filos, promotora de projectos de intervenção social, tentam resolver através do seu programa de combate à exclusão. No gabinete de emprego, recentemente criado, é dada formação profissional.

As mulheres, com idades entre os 30 e os 40 anos, na maioria com poucos anos de estudos, são as que mais recorrem a este apoio. Helena está entre elas, mas foge à regra. Tem conhecimentos acima da média, o que, reconhece, "não altera as mentalidades". É cigana e acredita ser esse o motivo para que todas as portas lhe sejam fechadas. Resignada, ocupa o tempo a cuidar dos três filhos e, para fazer algum dinheiro, no Verão, vende balões nas festas e romarias, e pensos rápidos, no Inverno, pelas ruas do Porto.

"Estas pessoas necessitam de ser valorizadas de forma a desenvolverem auto-confiança e auto-estima, enquanto agentes activos da própria mudança", defende Paula Pimenta, assistente social que há vários anos acompanha a comunidade cigana da zona oriental da cidade. No entanto, nem sempre é fácil intervir, devido à resistência à mudança característica da comunidade cigana, mas também pela falta de conhecimento da realidade de vida destas pessoas por parte de quem pretende actuar.

Na tentativa de mudar este cenário, o Centro Social da Paróquia da Areosa e a Fundação Filos realizaram um estudo sobre os ciganos que habitam no Porto, o primeiro trabalho do género produzido por um membro da própria comunidade, o presidente da União Romani Portuguesa, Vítor Marques. Helena, que recusa divulgar o apelido, foi a figura central em todo o estudo, que compara os processos de integração na sociedade portuguesa e espanhola.

Helena nasceu em Espanha e logo com os primeiros dias sentiu na pele o peso da discriminação. Os pais quiseram registá-la em Vigo, cidade galega onde residiam, mas o regime ditatorial da altura não o permitiu. Por isso, no Bilhete de Identidade a data não corresponde à realidade. "Nasci em Outubro, Franco morreu em Novembro e o problema ficou resolvido", diz a sorrir. Apesar de tudo, de Espanha só tem boas recordações "Lá não sentimos tanto a diferença, tratam-nos como os demais. Não há a discriminação que aqui existe e até somos estimulados a evoluir".

Em Vigo, estudou até aos 19 anos. Trabalhou em jardinagem na câmara municipal local, fez um curso de charcutaria e frequentou um ano o curso de auxiliar de enfermagem, interrompido quando decide vir viver para Portugal. "A minha mãe ficou desiludida por eu deixar de estudar, pois o objectivo era que todos fossem o mais longe possível", recorda, acrescentando que os irmãos fizeram todos o 8.º ano, na altura a escolaridade obrigatória em Espanha. No Porto, encontrou "um ambiente de nível mais baixo". A sociedade não a aceita "da mesma forma" e a própria comunidade "tem regras diferentes". Aqui "a mulher pode trabalhar, mas à maneira deles", diz, explicando ser difícil ir mais além que vender pelas feiras.

A receber o Rendimento Mínimo de Inserção, quando há uns meses foi chamada para uma entrevista de emprego pensou que teria chegado a sua hora. Puro engano. "Mal viram no BI que era cigana disseram logo que não estavam interessados", afirma com mágoa no olhar.

Pouco depois, deslocou-se à Loja do Cidadão para renovar o documento e mais uma vez sentiu-se humilhada. Teve de interromper o funcionário que se preparava para a "carimbar de analfabeta".


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