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por
Vicente Jorge Silva
Jornalista
Poucos esperavam, no fundo, que Cavaco Silva não ganhasse logo à primeira volta, mas quase ninguém apostaria em que a sua vitória fosse por margem tão escassa, longe, muito longe do plebiscito anunciado. E se a hipótese de Manuel Alegre suplantar Mário Soares era um cenário previsível, não o era nem a larga distância que acabou por separá-los nem sobretudo a surpreendente votação obtida por Alegre, ultrapassando todos os precedentes conhecidos de candidatos sem apoio partidário.
A surpresa "negativa" de Cavaco e a surpresa "positiva" de Alegre não alteram, obviamente, a evidência dos resultados a direita (uma direita difusa e complexada em que o próprio vencedor recusa reconhecer-se no plano ideológico) ganhou as presidenciais e a esquerda perdeu. Mas os significados dessa vitória e dessa derrota estão longe de ser lineares e, independentemente dos seus efeitos imediatos, permitem lançar pistas para redesenhar a paisagem política portuguesa.
Perderam os que desejariam ver Cavaco investido de poderes providenciais que permitiriam uma alteração do regime constitucional num sentido presidencialista. Mas, muito provavelmente, o primeiro a ficar aliviado com a modéstia relativa do seu triunfo terá sido o novo Presidente. Cavaco declarara temer a "demasiada esperança" nele depositada. E os eleitores acabaram por testemunhar que a sua esperança era, afinal, tão modesta como a vitória do candidato mais votado. É um sinal tranquilizador para a estabilidade institucional, para uma relação "normal" entre o Presidente eleito e o Governo socialista, mas, acima de tudo, para a dissipação da mitologia sebastiânica que fora encenada em torno da candidatura do vencedor prometido.
Mas o 22 de Janeiro trouxe também sinais perturbadores para o establishment político e partidário é que os dois candidatos mais votados acabaram por aparecer, cada qual no seu campo, como outsiders políticos (seja porque Cavaco fez disso um factor essencial da sua estratégia eleitoral, seja porque Alegre se viu obrigado a isso ao ser preterido pela direcção do PS a favor de Mário Soares). Apesar do carácter discutível e até artificial dessa "marginalidade" ou dessa "rebeldia", Cavaco e Alegre beneficiaram claramente da distância e do divórcio que os cidadãos vêm manifestando em relação aos aparelhos partidários.
Se, no que se refere a Cavaco, será ainda prematuro falar de atritos com os partidos que o apoiaram (mas que à sua sombra se eclipsaram), já o mesmo não se pode dizer a propósito de Alegre e do Partido Socialista. Aqui, a rebeldia do candidato pôs a nu uma desafectação dramática entre o PS e o respectivo eleitorado, sobretudo tendo em conta que o candidato oficial socialista era o seu pai-fundador, o que confere ao caso uma dimensão suplementar quase edipiana.
Por mais que se proclame que as votações presidenciais se esgotam formalmente no momento da eleição, nem a direita escapará ao efeito tutelar e inibidor da presença de Cavaco em Belém (o que causará dificuldades acrescidas à oposição parlamentar ao Governo socialista, num previsível cenário de coabitação pacífica entre o Presidente e o primeiro-ministro) nem o aparelho do PS resistirá incólume às marcas do movimento de desautorização e rebeldia provocado pela candidatura de Alegre.
A direita corre assim o risco de ficar politicamente prisioneira de Cavaco, enquanto o PS tenderá a ficar assombrado pela "insurreição" de Alegre quando a fractura exposta da autoridade de José Sócrates sobre o partido não puder ser já disfarçada. Aliás, é bem possível que um primeiro sintoma prenunciador dessa fractura tenha sido a extraordinária coincidência das aparições televisivas de Sócrates e Alegre na noite de 22 de Janeiro.
Os profissionais do cinismo político pretendem que as benesses da ocupação do poder dissolvem rapidamente os efeitos corrosivos das aventuras rebeldes. Só que isso não explica como é que Alegre obteve uma votação tão expressiva e deixou Mário Soares a seis pontos de distância, depois de uma campanha improvisada e errática, em que não contou com o apoio de nenhum "notável" socialista, nem sequer dos que estiveram com ele na disputa pela liderança partidária.
A questão não reside, pois, apenas em saber qual o capital que Alegre pode extrair da sua votação no interior do PS, mas sobretudo se o eleitorado socialista que votou Alegre contra a vontade do directório partidário não mudou já a paisagem política do partido. Será mais com isso do que com Cavaco que Sócrates e o aparelho do PS deverão preocupar-se. A não ser que não tenham aprendido nada com o 22 de Janeiro.
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