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Cavaco passa à primeira O estilo de coabitação com um PS 'absoluto' é a maior incógnita

 

Avitória de Cavaco Silva à primeira volta é o cenário que tem sido mais constante na generalidade das sondagens até agora divulgadas.

Se, ao fim do dia de hoje, Aníbal Cavaco Silva for "consagrado" Presidente da República pelo voto popular, a surpresa será nula para a generalidade dos comentadores e para largas franjas da população.

Este é o cenário, de resto, para o qual já está preparado o Governo a coabitação, pela primeira vez na história da democracia, entre um Presidente da República oriundo da direita, que até hoje nunca tinha conseguido colocar um representante da sua área política no Palácio de Belém, e um Governo PS.

A direita festejará o dia histórico - se se confirmar, a vitória de Cavaco Silva é, naturalmente, unipessoal (premiará um trabalho solitário, minucioso e determinado durante dez anos com vista a conquistar este objectivo).

No entanto, a vitória, a confirmar--se, não será "cantada" exclusivamente por Cavaco Silva. Marques Mendes, o líder dos sociais-democratas, festejará, como é natural, o facto de, pela primeira vez na história, ser eleito para o cargo um homem que comandou durante dez anos os destinos dos sociais-democratas - e os do País, uma vez que Cavaco Silva, seis meses depois de ter ascendido à liderança do PSD (Maio de 1985), foi eleito primeiro-ministro (Outubro seguinte).

A discreta mas efectiva participação do PSD nesta campanha presidencial (toda a máquina partidária, de norte a sul do País esteve em funcionamento) permitirá a Marques Mendes recolher dividendos para a sua liderança - relativamente à qual a "facção" dos cavaquistas exprime sérias reservas.

Aliás, o actual líder do PSD esteve entre os primeiros que declararam o seu apoio à candidatura de Cavaco Silva à Presidência da República, em tempos remotos. Recorde-se que, quando Durão Barroso ainda era primeiro-ministro e meio PSD se entusiasmava com uma putativa candidatura a Belém de Pedro Santana Lopes, na época número dois, Marques Mendes deu uma entrevista em que admitiu que, caso fosse candidato, "Cavaco Silva teria um resultado histórico".

Se Marques Mendes pode obter uma parte dos despojos da eventual derrota da esquerda , a verdade é que a grande influência da direita se desloca da São Caetano à Lapa, onde fica a sede do PSD, para o Palácio de Belém, onde Cavaco pontificará .

Neste cenário, o líder do PSD será obrigado a um duro exercício de esforço para criar um espaço próprio, autónomo e evitar a subalternização pela forte personalidade política de Cavaco Silva. Mesmo que Cavaco Silva não faça tenções de interferir na vida interna do PSD, nem dar gás à ala cavaquista que se mantém na expectativa de um dia poder substituir Marques Mendes na liderança do PSD.

O "outro partido", como o candidato sempre chamou ao CDS, que lhe declarou apoio formal, e que Cavaco olimpicamente desprezou durante toda a campanha, poderá regozijar-se com o histórico afastamento de "personalidades oriundas da esquerda" do Palácio de Belém.

É esta (e mais nenhuma) a vitoriazinha de José Ribeiro e Castro, que, para solidificar a sua liderança, terá que encontrar um espaço próprio distinto do PSD e do Presidente, que, no seu tempo de líder social-democrata, conseguiu a fantástica proeza de reduzir o CDS a uma insignificância (quatro deputados em 1997, data da primeira maioria absoluta).

Na noite eleitoral, caso se confirme a vitória de Cavaco Silva à primeira volta, José Sócrates lamentará a derrota do seu candidato, mas felicitará o homem com quem, nos próximos três anos, irá protagonizar a inédita coabitação Governo PS - Presidente social-democrata.

Sobre esta coabitação, adensa-se uma nuvem de interrogações. Cavaco Silva veio para "mandar" - é o subtexto da sua campanha eleitoral, aquilo que o povo espera que faça. Cavaco Silva utiliza expressões como "ajudar" o Governo e insiste na "cooperação estratégica". Como é que um Presidente que ameaça ser interventivo se irá relacionar com um Governo que tem a legitimidade da maioria absoluta é uma incógnita.

Se se confirmar a eleição à primeira volta, Cavaco Silva terá uma legitimidade acrescida no cargo - não terá o problema de Mário Soares que fez um esforço titânico, no primeiro mandato, para se reconciliar com a direita que o tinha arduamente combatido e que lhe permitiu uma vitória "à justa". Quanto mais expressiva for a vitória de Cavaco Silva, mais legitimidade política terá o novo Presidente para "mandar". Um Presidente da República tem enormes poderes no nosso sistema - o difuso, o da palavra, que pode "massacrar" um Governo; e o concreto, o do veto, que pode inviabilizar actuações concretas desse Governo.

Cavaco, sabe quem o conhece, não deixará os poderes em mãos alheias. Mas é ele que, desde sempre, tem afirmado defender a estabilidade.

No cenário de Cavaco Silva ser o candidato mais votado, mas não conseguir os 50 por cento dos votos expressos para ser eleito à primeira volta, será confrontado hoje com uma espécie de " derrota simbólica". A vitória do dia, por inesperada segundo os múltiplos estudos de opinião, caberá ao candidato da esquerda que conseguir o feito de se bater com Cavaco Silva numa segunda volta.

Independentemente de qual for o resultado de uma hipotética segunda volta, e mesmo que venha a sagrar-se vencedor, a legitimidade política de Cavaco Silva diminui - na mesma proporção que uma eleição à primeira o torna portador de um enorme peso político que acompanhará a sua instalação em Belém. Porque é que se Cavaco falhar a eleição hoje, mesmo sendo mais votado, se pode falar em "derrota simbólica"? Porque, durante a campanha, Cavaco pediu a eleição à primeira volta e a esquerda passou durante a campanha por condições tão adversas que em tudo contribuíram para abrir caminho à sua consagração já hoje. E, mais importante ainda, uma bipolarização entre dois candidatos, nunca favoreceu a direita - a história regista a vitória de Mário Soares sobre Freitas do Amaral, em 1986.

Falhar a eleição à primeira complicará, obviamente, a vida a Cavaco Silva e traduzir-se-á numa expressiva vitória simbólica da esquerda . Agora, qual dos candidatos em presença poderá confrontar Cavaco Silva numa segunda volta? As sondagens registam um razoável empate, para o posto de número dois dos mais votados, entre Mário Soares e Manuel Alegre, com muitos dos estudos a colocarem mesmo Manuel Alegre à frente de Mário Soares nas intenções de voto.

Se um ou outro vier a estar em condições de obrigar Cavaco Silva a uma segunda volta, tratar-se-á, tanto no caso de Alegre como no de Soares, de extraordinárias vitórias pessoais, atingidas à conta de duras penas.

É natural que, em qualquer dos casos, toda a esquerda festeje a inesperada "vitória" e se prepare para apoiar em massa o candidato mais votado. Se for Mário Soares a confrontar Cavaco Silva numa eventual segunda volta, José Sócrates ficará tranquilo. É o "seu" candidato, o candidato oficial do PS, em quem Sócrates apostou, contrariando a possibilidade da candidatura de Manuel Alegre, que estava em cima da mesa do Partido Socialista há longos meses.

E se for Manuel Alegre o mais votado e conseguir obrigar Cavaco Silva a uma segunda volta? A confirmar-se este cenário, José Sócrates e o "PS oficial" podem incluir uma pesada derrota no seu currículo. Sócrates não deu um passo público para deixar avançar Alegre, quando a protocandidatura do poeta já se encontrava em marcha entre os seus fiéis. Mais só forçado por Mário Soares é que Sócrates decidiu confrontar-se e tomar decisões sobre o dossier presidenciais - dois dias antes de Soares anunciar a disponibilidade no Expresso, Sócra- tes remetia a questão do candida- to do PS para as calendas gregas.

A eventual passagem de Manuel Alegre à segunda volta é, sem qualquer dúvida, um enorme revés para Sócrates. Se isso acontecer, vai ser o secretário-geral do PS a engolir um enorme sapo vivo (expressão utilizada por Cunhal quando anunciou, em 1986, o apoio do PCP a Mário Soares) quando se vir na contingência política de apelar ao voto dos socialistas em Manuel Alegre.

Embora chefie neste momento um Governo com maioria absoluta, a passagem à segunda volta das presidenciais do homem que já foi seu adversário na disputa interna pela liderança, e que agora se candidatou a Presidente afrontando a direcção do PS e o seu candidato oficial, coloca o primeiro-ministro numa das mais delicadas situações da sua vida política pós-maioria absoluta. Uma grande convulsão esperará um partido que, no último ano, andava anormalmente tranquilo.

Três cenários em aberto

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