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OTexas e o Rosa ligaram-me, eu fui ter com eles, mas meti-me nos copos e não me lembro de mais nada". Foi assim que Vítor Rocha, mais conhecido por Orelhas, começou o seu testemunho, na primeira audiência de um julgamento que começou ontem no Tribunal de Sintra, e cujos contornos burlescos já fizeram com que ficasse conhecido como "o caso dos avôs metralha".
A história remonta a 1 de Abril de 2004. Três homens de 71, 67 e 62 anos (respectivamente Texas, Orelhas e Rosa) foram apanhados em flagrante, depois de terem assaltado, alegadamente pela segunda vez, uma pastelaria nos arredores de Abrantes.
Além da avançada idade dos assaltantes, uma outra curiosidade transformou um simples roubo num enredo quase cinematográfico. A mercadoria furtada consistia em chocolates, bombons, pastilhas elásticas e... rebuçados. Mas o insólito não fica por aqui. Ao que tudo indica, os três ladrões só terão sido apanhados porque a namorada de um deles - uma jovem de 18 anos - terá decidido denunciar o crime à Polícia Judiciária.
Depois de se ter escudado no álcool para se demarcar do primeiro assalto, e instigado a comentar a sua participação no segundo roubo à mesma pastelaria, o Orelhas repetiu "Da segunda vez foi igual. Fui ter com eles mas, como cheguei antes da hora marcada, tornei a embriagar-me. E não me recordo de mais nada". A juíza, presidente do colectivo, não conteve o riso e retorquiu: "Isso é que o senhor bebeu! Bebeu e bem!"
Armas e droga à mistura
Quanto ao material encontrado na roulotte de Orelhas, num mandado de busca posterior à detenção, (uma caçadeira, munições, meio quilo de haxixe, vários cartuchos, um spray de gás paralisante), o arguido disse não ter conhecimento de nada "Quando fui detido, depois do assalto, dei as chaves da minha roulotte ao Rosa...". A juíza tornou à ironia "Quer fazer os juízes acreditar que foi o sr. António Rosa que lá pôs essas coisas? Isso dá jeito porque como ele entretanto morreu não é possível saber, não é verdade?"
Já os bilhetes de identidade roubados que Orelhas tinha em sua posse, um dos quais falsificado com a sua fotografia, o arguido não teve como negar nem tentou culpabilizar o comparsa já morto. "Isso é verdade. Comprei os bilhetes de identidade em Barcelona".
A esferográfica como arma
O segundo arguido a ser ouvido ontem pelo colectivo de juízes foi Manuel Pires, conhecido por Texas. O homem de 71 anos foi muito claro "Dizem que assaltámos a pastelaria duas vezes e é mentira. Nós fomos lá uma primeira vez mas foi só para estudar a melhor maneira de entrar. Mas nem sequer entrámos. Depois voltámos uma segunda vez. Mas como , para nossa surpresa, as janelas estavam com grades, também não chegámos a entrar. Só à terceira é que foi".
Sobre a sua participação no assalto, Texas alegou ter ficado sempre no carro, além de nunca ter imaginado que os parceiros fossem à pastelaria com o intuito de a assaltar "O que estava combinado era que eles iam arrombar o cadeado da máquina do tabaco. E só isso. Nunca me passou pela cabeça que eles trouxessem mercadoria do café onde eu era cliente habitual".
Segundo Texas, o canhão da máquina do tabaco serviria de molde para o Rosa, serralheiro de profissão, fazer uma chave destinada a abrir um armazém de jipes. "Eu não sou ladrão. A minha arma é a esferográfica", sublinhou ainda, em tom grave.
A culpa é do morto
No que diz respeito à arma encontrada na sua casa, Texas garantiu não lhe pertencer. "E então a arma era de quem?", quis saber a juíza. "Não posso dizer", começou o Texas, acrescentando depois em surdina "Não vou agora atirar as culpas para cima de um morto, não é?"
A juíza esboçou então um sorriso sardónico "Não me diga que a arma também pertencia ao falecido sr. Rosa?" O arguido acabou por confirmar, jurando dizer nada mais do que a verdade. A presidente do colectivo de juízes tornou a rir com a convicta resposta do arguido: "Ora como é que eu já estava a adivinhar?"
O julgamento do assalto dos "avôs metralha" continua no próximo dia 2 de Fevereiro.
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