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Narizes de palhaço dão lugar a bigodes nos cartazes dos candidatos

 

Primeiro foram os narizes de palhaço, nas legislativas, depois os balões de banda desenhada, nas autárquicas e, terça-feira à noite, grandes e farfalhudos bigodes ao estilo oitocentista apareceram habilidosamente colados por baixo do nariz de alguns candidatos à Presidência da República.

"Todos os candidatos melhoraram com os bigodes", diz ao Diário de Notícias Judite Mota, directora criativa da Bates Red Cell, que refere que os cartazes em geral não trazem "absolutamente nada de novo". Esta é "uma forma de pôr toda a gente a sorrir, coisa que não acontece com as fotografias oficiais dos senhores sérios e importantes que se candidatam à Presidência", acrescenta. E depois, "não é como os narizes de palhaço que se encerravam um julgamento de valor", adianta a publicitária que lembra ser o "bigode ainda um símbolo dos portugueses..."

Um elemento de "protesto" que veio animar a falta de novidade a nível da mensagem e de layout é também a visão do publicitário Gonçalo Morais Leitão, que acrescenta poder agrupar-se os candidatos quanto à mensagem e grafismo em três grupos. Um primeiro, com Cavaco Silva e Francisco Louçã, donos de grande agressividade de mercado; um segundo com Mário Soares e Jerónimo de Sousa, mais institucional e um terceiro, à parte, onde estaria Manuel Alegre.

Prova da agressividade de Louçã é o lema "Um 'rigor e solidariedade', em caixa alta, como que a gritar a mensagem, enquanto Cavaco recorre às letras garrafais para o seu 'Portugal Maior'", analisa Morais Leitão. Tudo isto com muito vermelho, uma cor considerada positiva, mas também associada à venda. "Basta lembrarmo-nos que os hipermercados usam muito esta cor para as suas promoções", explica Morais Leitão.

Mário Soares, que surge num espaço branco e limpinho, "denota um ar pesado e azedo, muito azedo", diz ainda Morais Leitão que alerta para uma "proeza" que seria vedada a qualquer outra pessoa "Transforma o escudo da bandeira portuguesa, um símbolo nacional, num coração, e ninguém diz nada, refere, alertando para o "único elemento criativo da campanha: o cartaz MP3".

Outra curiosidade da análise está no facto de Soares, Cavaco, Jerónimo e Alegre colocarem-se à esquerda dos seus cartazes. "Ironicamente, o candidato Louçã é o único que escolheu o centro do outdoor para apelar ao voto do eleitor. Este é aliás, o único elemento diferenciador face aos restantes...", diz o publicitário, lembrando-se subitamente da "falta da gravata".

No grupo à parte, "Manuel Alegre, que podia ter tirado partido da imagem do candidato-poeta, aparece triste", analisa Morais Leitão.

Mais falta de imaginação...

"É muito difícil mostrar imaginação quando tudo se resume a uma foto e uma frase", reforça Ricardo Monteiro, presidente da Euro RSCG. "Desde logo, porque se é verdade que os olhos são o espelho da alma, é preciso vê-los ao vivo e não de forma estática". No entanto, o recurso a certos truques "peca por excessivo - Soares, Sempre presente - como quem diz - Soares, Sempre Presidente - é desnecessário e pouco sério". Já Cavaco tenta descolar da ideia de partido para se erigir em candidato nacional, daí a bandeira nos cartazes, mas uma bandeira modernizada, com design. "'Portugal pode vencer' foi o início, pretendendo indiciar que a última vez que venceu foi sob a sua batuta. Vamos ver", aventa Ricardo Monteiro. Quanto ao candidato apoiado pelo PCP a questão é mais simples " Jerónimo de Sousa, tem presença forte em cartazes. É daquelas caras de homem sólido, que todos apreciamos. Parece dos nossos, o tio da província, trabalhador e afável, casado com uma senhora que faz óptimos bolos e é encantadora com os netos. Funciona pela proximidade afectiva".

Já "Loução é um desastre em matéria de 'fotogenia'. Tem um olhar penetrante e duro. Parece aquele professor que todos tememos no banco de escola. Mas enfim, lá está no seu papel de 'eu sei tudo e a todos avalio'. Quanto a Manuel Alegre, é apenas uma cara, do cidadão simpático, honesto e até próximo mas... o que é que ele nos quer dizer?


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