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por
Amos Oz
Escritor israelita
Ariel Sharon viveu a maior parte da sua vida como um lavrador-soldado. Era como um dos juízes de Israel do Velho Testamento. Primeiro defendeu a sua aldeia dos atacantes e saqueadores, a seguir perseguiu os inimigos, conquistando e destruindo as suas aldeias; depois construiu as suas próprias aldeias, defendeu-as, a seguir perseguiu novamente os inimigos e assim sucessivamente , como um círculo vicioso.
Tudo começou na juventude com escaramuças armadas de rapazes pastores as quais evoluíram ao longo dos anos para enormes batalhas com milhares de tanques de cada lado. Mas Sharon, o homem, manteve-se o mesmo durante a Guerra da Independência em 1948, a Guerra do Yom Kippur em 1973, na guerra do Líbano em 1982 e no projecto da construção de colonatos. Durante a sua vida, desde a infância até à velhice, defendeu que aquilo que não pode ser feito pela força pode ser feito com extra-força. Defendia que nós, israelitas, podemos criar mais e mais factos no terreno os quais os árabes terão de engolir e o resto do mundo acabar por reconhecer.
Era o homem da força. Recordamo-lo com a ligadura manchada de sangue no Canal do Suez ameaçando soltar a ira das legiões contra os políticos se eles se atrevessem a fazer uma só concessão aos árabes, por pequena que fosse. Recordamo-lo também em Beirute durante a sua impiedosa cruzada no Líbano tentando instalar à força uma nova ordem no velho Médio Oriente. E recordamo-lo a instalar centenas de colonatos e centenas de milhares de colonos judeus na Cisjordânia, na Faixa de Gaza, no Sinai, nos Montes Golã. Sempre o homem da força.
Durante essas décadas não gostei dele. Simbolizava para mim tudo aquilo que eu não podia defender acerca do meu país farisaísmo, uma mistura de brutalidade e auto-comiseração, uma ganância insaciável por terra e uma fraseologia religiosa mística a qual, vinda de um soldado hedonista secular, sempre me pareceu hipócrita. Não havia outro indivíduo que personificasse melhor a intoxicação de muitos israelitas como o poder do poder.
Nunca o conheci pessoalmente. Nunca estive na mesma sala com ele. As pessoas dizem que num círculo íntimo é um homem amável, generoso e divertido; encantador, com um sentido de humor apurado e um amante da boa comida e do luxo. Sempre recusei deixar-me impressionar por tais opiniões. Detestava-o por ser inimigo da paz.
E depois, há dois anos, aconteceu uma mudança súbita. Uma metamorfose misteriosa. A retórica de Sharon mudou da noite para o dia. Primeiro o seu vocabulário começou a parecer o dos seus rivais. Como se tivesse carregado num interruptor e começado a falar uma língua diferente. Quando Sharon disse pela primeira vez, há cerca de dois anos, que a ocupação é um desastre para os ocupados e para os ocupantes, nem conseguia acreditar no que ouvia. Quando começou a falar de dois estados para as duas nações, pensei que devia estar a brincar. Quando mencionou pela primeira vez os direitos dos palestinianos pensei que estava a escarnecer das palavras de ordem do Movimento para a Paz. E quando anunciou pela primeira vez que iria retirar os colonos judeus e o exército israelita de Gaza pensei que não passava de uma estratégia astuciosa. Mas fê-lo. Chamaram-lhe bulldozer quando criou os colonatos e sem dúvida que actuou como um quando os desactivou. A retirada dos colonos israelitas de Gaza foi uma operação militar. Sharon esmagou os colonos em Gaza no mesmo estilo de blitzkrieg com o qual ganhou as suas muitas guerras. Nem um único edifício ficou intacto nesses colonatos.
Contudo só teve dois anos para começar a desfazer tudo o que fez em 35 anos. Todos os colonatos na Cisjordânia e nos Montes Golã continuam de pé como monumentos ao velho Sharon. Está a deixar-nos levando consigo as respostas a dois grandes mistérios porque é que no outono da vida fez uma viragem tão radical e o que ainda iria fazer na via da paz e da reconciliação?
Houve, contudo, algo que Sharon nunca conseguiu fazer, nem sequer quando retirou de Gaza. Nunca se sentou com os palestinianos para tentar falar com eles como um vizinho fala com outro. Ariel Sharon deixa-nos como se nos dissesse Reconheço os meus erros. Tentei, finalmente, corrigi-los mas a vida foi demasiado curta.
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