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por
Miguel-Pedro Quadrio
O encenador e realizador Artur Ramos morreu ontem, com 79 anos. Na mensagem difundia no Dia do Autor de 1994, afirmava "Neste ano (…) é dada a palavra a um Autor de Televisão, o que acontece pela primeira vez." Mas esta autodefinição modesta não esgota, de todo, o homem de cultura que foi Artur Manuel Moreira Ramos.
Ligado, embora, à Radiotelevisão Portuguesa desde a sua fundação - foi o primeiro realizador efectivo da empresa e encarregou-se das emissões experimentais que tiveram lugar na Feira Popular, em 1956, Artur Ramos teve uma carreira riquíssima e abrangente.
A par da realização televisiva - que estimava como veículo privilegiado de (boa) divulgação cultural -, encenou teatro, fez cinema, foi actor, traduziu teatro e não só, norteando sempre o seu trabalho por quatro propósitos claros renovação do cânone dramatúrgico praticado entre nós (ele é o grande divulgador em Portugal de autores fundamentais e, então, politicamente "incorrectos", como Samuel Beckett, Harold Pinter, John Osborne ou Stanislas I. Mitkiewicz); qualificação estética de um tecido artístico pobre; atenção aos valores emergentes (aos novos dramaturgos portugueses da época, como Teresa Rita Lopes ou Luiz Francisco Rebello, mas também aos mais interessantes actores das novas gerações - ficou célebre a sua direcção, em 1968, de Glicínia Quartin n'Os Dias Felizes, de Beckett); intervenção cívica (acusado pela PIDE de "pacifismo" e de ligações ao Partido Comunista Português, foi despedido da RTP, em 1961, além de ter visto encenações suas proibidas pela Censura).
Nascido em Lisboa a 20 de Novembro de 1926, Artur Ramos licenciou-se em Filologia Germânica na Faculdade de Letras de Lisboa. Não defendeu a tese de licenciatura, porque, em 1951, já trocara a Literatura pela Cinema. É nesse ano que se inscreve nos cursos de Realização e Montagem, em Paris, no Institut des Hautes Études Cinématographiques, concluindo-os, em 1954, com a tese Le Regard Portugais sur la TV Française. A chegada da televisão a Portugal trá-lo de volta, já que a experiência de realização adquirida na radiotelevisão francesa o tornava indispensável no lançamento da RTP. É justamente esta circunstância que o transforma em "realizador de serviço" - da culinária aos directos, fez então um pouco de tudo - e que, mais tarde, lhe permitirá desenvolver o seu particular interesse pela direcção de espaços culturais.
Apesar de menos frequentes, as suas incursões no cinema deixaram-nos em Pássaros de Asas Cortadas (1963) um dos mais impressivos e mordazes retratos da alta burguesia portuguesa dos anos 50. E a sua última encenação fê-la com os Artistas Unidos, regressando ao seu tão estimado Pinter, com uma notabilíssima leitura d'A Colecção (2002).
O corpo de Artur Ramos estará em câmara ardente, a partir das 14.00 de hoje, no centro funerário de São Pedro de Alcântara, em Lisboa, de onde o funeral sairá amanhã, às 11.00.
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