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Vera Moura
Operar um peixe não é tarefa fácil. E quando a cirurgia é realizada debaixo de água, a 20 metros de profundidade, pode até parecer impossível. Mas não é. Que o digam os investigadores do Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores, que conseguiu realizar, com sucesso, a primeira operação subaquática a um peixe, uma experiência inédita em Portugal e mesmo na Europa - a técnica só está divulgada nos EUA.
Uma equipa de três biólogos açorianos, Pedro Afonso, Jorge Fontes e Rui Guedes, introduziu em apenas nove minutos um transmissor acústico (de três centímetros de comprimento e um de espessura) no corpo de um pargo, em águas a 16º C. O transmissor, o primeiro de uma série de seis operações previstas, permitirá detectar os movimentos do pargo e perceber um pouco melhor o comportamento dessa, e, no futuro, de outras espécies de profundidade essenciais para a pesca açoriana.
"Queremos analisar o comportamento natural dos peixes e a forma como cada espécie gere o seu habitat, alimentação ou reprodução", explicou Pedro Afonso, um dos "cirurgiões" do pargo açoriano.
A operação foi realizada no âmbito de projectos apoiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e pelo fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), em que o DOP está envolvido.
Como um ser humano
Operar um pargo implica procedimentos muito próximos dos que se realizam num ser humano. Por partes em vez de ser anestesiado, o peixe é colocado de barriga para o ar, já que nessa posição fica como que adormecido. É-lhe, então, posta uma mangueira na boca com água corrente, faz-se a incisão com o bisturi, coloca-se o transmissor, cose-se o peixe e aplica-se um antibiótico em pasta para evitar infecções.
O peixe foi marcado, para que alguma embarcação que o pesque possa devolvê-lo ao DOP.
"A técnica clássica consiste em trazer o peixe para cima, operá-lo, e voltar a pô-lo lá em baixo", explica Pedro Afonso. "O que pretendemos é evitar problemas de descompressão, que, quando não mata, altera completamente o comportamento normal do peixe." Ou seja, a operação em águas profundas é uma forma de evitar lesões, ou mesmo a morte de certos peixes. É que quando a profundidade é superior a 20 metros, os animais sofrem uma expansão do ar que, interiormente, os corpos não conseguem suportar.
A recuperação do paciente foi imediata "Começou logo a fazer cardume com outros peixes e, passadas algumas horas, comeu. O peixes operados à superfície arrastavam-se, flutuavam apáticos ou nadavam de um lado para o outro sem parar, num comportamento completamente atípico", conta o biólogo.
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