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Morreu o "poeta nocturno"

por

isabel lucas

Foto de António Lampreia  

Dizem que morreu a rir e diz-se que foi de ataque cardíaco, na passada segunda-feira, após 38 anos de internamento na Casa de Saúde do Telhal. Pouco se sabe acerca das circunstâncias da morte do poeta 'louco', como pouco se soube da sua vida e da obra, escrita integralmente no manicómio. "Foi muito mal tratado pela sociedade. É mais um caso de abuso psiquiátrico, de miséria nacional e institucional", disse ao DN o pintor Álvaro Lapa, conterrâneo de António Gancho, que lhe arranjou editor quando o então novel poeta o informou de que tinha um livro por publicar. "Era um homem de grande lucidez poética", como o retrata Manuel Rosa, da Assírio & Alvim, a editora que publicou aquela que é considerada a grande obra de António Gancho, O Ar da Manhã, em 1995. Um livro que, segundo o poeta, "são quatro livros" num volume O Ar da Manhã, Gaio do Espírito, Poesia Prometida e Poemas Digitais de onde se destaca este "Noite, vem noite sobre mim sobre nós/ dá repouso absoluto de tudo/ traz peixes e abismos para nos abismarmos/ traz o sono traz a morte..."

António Luís Valente Gancho nasceu em Évora em 1940 e desde os 20 anos que correu várias instituições psiquiátricas. Dizia ser Luiz Vaz de Camões, Bocage, Kafka, Pessoa e todos os escritores que admirava. Dizia ainda que não sabia por que escrevia, que o escritor "só pode ser escritor quando já nasceu escritor" e que "a imaginação é tudo. É ela que deve estar ao comando da inspiração, quero dizer, a inspiraçao deve comandar a imaginação do autor, do escritor, do poeta." (in A Phala, n.º45).

Gancho tinha então 45 anos e foi apresentado como uma "revelação sólida da poesia". Antes, já Herberto Helder o dera a conhecer, com uma selecção de 11 poemas, em Edoi Lelia Doura das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa (Assírio & Alvim). E é a Herberto Helder que Manuel Rosa recorre quando se lhe pede para classificar a poesia intensa e de matriz surrealista de António Gancho "Era um poeta nocturno". Álvaro Lapa fala de "uma poesia nada construída, muito espontânea".


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