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2005 não acaba à meia-noite

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maria João caetano  

O último minuto deste ano vai ter 61 segundos. Quando o relógio chegar às 23 horas, 59 minutos e 59 segundos, terá ainda de fazer uma paragem no segundo 60 e só depois chega ao segundo zero de 2006. Apesar de vir baralhar as contagens decrescentes para o Ano Novo, este é um acerto necessário para fazer coincidir o tempo atómico com o tempo de rotação da Terra. A primeira vez que tal se fez foi a 30 de Junho de 1972 (os acertos são feitos a meio ou no final do ano) mas desde 1999 que não era preciso.

"Existem duas escalas de tempo que são mantidas independentes no nosso planeta", explica Rui Agostinho, subdirector do Observatório Astronómico de Lisboa, responsável pela hora legal em Portugal. Uma é a escala do tempo solar médio, "que está associada ao movimento de rotação da Terra e que regula o dia e a noite". A outra escala é o tempo atómico internacional, conhecido como Tempo Universal Coordenado (TUC), que não depende do Sol ou das estrelas mas sim dos relógios atómicos, de grande precisão, inventados em meados do século XX.

A medição do tempo atómico é essencial para as comunicações de alta velocidade, efectuadas pelos satélites, nomeadamente o GPS. A monitorização do tempo atómico é feita pelo IERS (Internacional Earth Rotation and Reference Systems Service), sediado em Paris, e é aí que se decide se é ou não necessário acrescentar segundos nos nossos relógios.

"O problema não está na escala do tempo atómico, que é bastante constante e precisa. O problema está na rotação da Terra", explica Rui Agostinho. "A Terra tem vindo a fazer a sua rotação cada vez mais lentamente. A taxa de perda é pequena, não se sente no dia-a-dia, mas exige que de vez em quando se faça um acerto entre as duas escalas." Quando, em 1972, se definiu o TUC, adoptou-se como referência a duração de uma rotação terrestre em 1820, o que, desde logo, exigiu um primeiro acerto. Desde então, já houve 21 acertos - nunca foi preciso retirar segundos, mas essa hipótese não está excluída.

Rui Agostinho explica se hoje, à meia-noite, acertarmos um relógio atómico pela escala solar, ao fim de 24 horas iremos constatar que o relógio está dois milésimos de segundo adiantado. O que significa que, ao fim de um ano, o relógio vai estar aproximadamente 0,8 segundos adiantado.

Isto seria relativamente fácil de resolver se a Terra não fosse tão caprichosa. "A verdade é que a perda de rotação é oscilante, há anos em que se atrasa mais, noutros atrasa-se menos", explica Rui Agostinho. "A rotação está dependente da estrutura do planeta e das acções gravíticas que sofre. Por exemplo, a actividade sísmica pode alterar a rotação da Terra." Ou seja é impossível saber quando será necessário fazer um novo acerto.


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