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artes

O ano Dylan (2)

por

pedro Mexia

pedromexia@gmail.com  

Scorsese encena o percurso de Dylan como uma odisseia. Do liceu no enfadonho Minnesota ao sucesso mundial. Uma odisseia solidamente estribada na música popular americana e em mestres como Woody Guthrie, mas a que se acrescentam outras influências como Kerouac e alguns poetas.

Dylan sempre se viu como um underdog indiferente ou hostil ao aproveitamento que fazem das suas canções, ao esmiuçar de sentidos pelos críticos, às perguntas imbecis. As cenas de conferência de imprensa em No Direction Home são fabulosas; quando um jornalista lhe pergunta quantos cantores de intervenção existem, Dylan responde about 136. Ele abomina a ideia de que tem uma mensagem o que lhe interessa é a música, e especificamente a tradição musical americana (tanto os génios como os grandes desconhecidos), a adaptação e actualização de canções antigas, as experiências com os tempos e as texturas (isso explica que os concertos sejam fundamentais na definição da sua identidade). Dylan não pretende agradar aos seus fãs de uma fase específica, porque a sua curiosidade musical evolui e avança e não se compadece com cristalizações e clichés.

Este DVD, pejado de fotos, clips e depoimentos, inclui imagens do célebre concerto em Manchester, em 1966, com um Dylan eléctrico que suscita a cólera dos apóstolos folk, um dos quais lança o famoso grito "Judas". Dylan responde assim I don't believe you. You're a liar. E depois, de costas, pede aos seus músicos Play it loud. E segue- -se Like a Rolling Stone, na mais espantosa versão imaginável.

Dylan é contra a injustiça mas também contra a incompreensão, e as suas epopeias surreais e torrenciais têm muitas vezes como objecto os quenão compreendem. De facto, a ideia de que Dylan se vende ou desiste quando muda de registo (quando se tornou eléctrico, country, cristão ou misantropo) é uma incompreensão básica da personalidade do senhor Zimmerman ele é um músico e um poeta obcecado pelas canções e pelas palavras: tudo o mais é absolutamente secundário. Dylan é um genial velho numa odisseia de décadas a caminho da juventude. Como ele confessa: It took me a long time to get young.


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