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Brincar aos cabeleireiros

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ANA CÉSAR COSTA  

Em três cabeleireiros da capital dirigidos a uma clientela especificamente infantil, há tesouras e secadores, manicuras, depilações e desparatisação. Mas também há guloseimas, jogos e muitas brincadeiras para que cortar o cabelo nunca mais seja um problema. Por outras palavras, estes estabelecimentos não obrigam os mais pequenos a sentarem-se em listas telefónicas para conseguirem encostar a cabeça ao lavatório. Esperar pela sua vez é uma experiência divertida e não uma seca monumental, já que há jogos de Lego, livros, consolas e televisão para passar o tempo. Depois, as cabeleireiras têm toda a paciência para crianças irrequietas, conversando com elas à medida que a tesoura trabalha.

O Baetas & Cª, o primeiro cabeleireiro infantil de Lisboa, abriu em 2002, na zona das Laranjeiras. Hoje conta com 5000 clientes regulares, que gostam de cortar o cabelo sentados nas cadeiras em forma das mascotes, o João Baeta ou a Maria Baeta. Cada criança começa por fazer uma ficha. Depois pode ficar sentada em pufs coloridos ou a pintar, ler ou jogar na PlayStation enquanto espera a sua vez, quando chega a altura de lavar o cabelo. Segue-se o corte, talvez o momento mais traumatizante para muitas crianças. Mas a televisão em frente da cadeira ajuda a ficar "quieto". Pedro Antão, psicólogo de formação e um dos sócios do Baetas & C.ª, apostou no cabeleireiro infantil quando estava à procura de um negócio relacionado com crianças. Ajudar a "reduzir a resistência natural" das crianças, "transformando um problema numa diversão", era um desafio que foi respondido à altura. O estabelecimento desenvolveu uma gama complementar de serviços para além do simples cabeleireiro, com pinturas de fantasia, manicura, baby-sitting, loja de produtos de beleza e higiene e organização de festas de aniversário. Cada cliente pode tirar fotografias impressas no momento e os mais novos levam para casa um "Diploma de 1.º Corte", com uma fotografia e um pedacinho de cabelo, para que nunca mais esqueçam tal aventura.

Os pais podem comprar chocolates e rebuçados como forma de "recompensa" aos meninos que se portem bem. É que já houve casos de crianças, conta Pedro Antão, que entravam no Baetas a chorar. Só com muita paciência e brincadeiras prévias, vendo que aos outros meninos não acontecia nada de mal, é que aceitaram subir à cadeira das mascotes.

O Escovinhas já faz parte dos roteiros dos moradores mais jovens de Miraflores. Atrai, além destes, clientes de Carnaxide, Estoril e Cascais. Com um espaço mais amplo, este cabeleireiro reserva os domingos para festas de aniversário. Também acontece as festas serem durante a semana, depois das aulas. Mas a actividade mais forte deste espaço são mesmo os penteados divertidos, tranças, pinturas e manicura para crianças.

"Muitos pais deixam aqui os filhos enquanto vão às compras", diz João Botelho, relações públicas do Escovinhas. Mas também acontece ficarem "às vezes vem a família toda e, enquanto um corta, os pais brincam com os outros filhos. Como durante a semana não têm tempo, quando vêm cá sentam-se ali à mesa e brincam ou jogam pingue- -pongue", constata o responsável.

Tratando-se de crianças muito pequenas, há mais rapazes do que raparigas. Mas com a entrada no ensino básico assiste-se a uma reviravolta. "As meninas vibram com a história de serem as princesas. É muito engraçado ver as expressões delas quando se põe uma pinturinha na unha, quando se faz uma trança. É o imaginário delas", explica Alexandra, sócia do Escovinhas. O cabeleireiro de Miraflores desenvolveu todo um merchandising à volta da mascote, com ganchos, escovas, fitas de cabelo e T-shirts com a figura do boneco que veio do planeta do penteado.

Os sábados são o dia mais movimentado do Escovinhas, mas pontualmente aparecem mais clientes, como nesta época festiva ou em Maio, na altura da primeira comunhão. Outras vezes, vêm sem motivo especial, "como uma mãe com três filhos que no outro dia apareceu aqui porque já não sabia o que fazer com eles em casa", conta Alexandra. O rapaz foi logo para a PlayStation, mas as meninas vieram só para se pentear".

O mais recente cabeleireiro infantil é o Tesourinhas, no Picoas Plaza. Aberto em Julho de 2005, já conta com um registo de clientes com o seu quarto ou quinto corte de cabelo. Ao contrário do Baetas & Cª e do Escovinhas, o Tesourinhas não é exclusivamente infantil, trata também dos cabelos dos pais que queiram acompanhar os filhos.

Sandra Vidal, responsável pelo Tesourinhas, resolveu abrir este espaço porque ela própria tinha dificuldades em levar os filhos a cortar o cabelo. Muitas cabeleireiras "não têm paciência" para crianças, considera Sandra. "Não é qualquer pessoa que o faz, tem que se ser rápido mas ao mesmo tempo tem que se ter muita paciência." Por ser difícil ter pessoal especificamente formado para este público, a responsável explica os preços praticados "A maior parte dos pais acham sempre que estão a pagar muito, esquecendo que um corte de criança demora mais tempo a fazer."

Aqui, o ambiente de brincadeira já predispõe os mais novos para uma experiência positiva. Os meninos "querem vir logo para os carrinhos", relata Sandra. "E muitas vezes, quando está na altura de ir embora, começam a chorar porque não se querem partir."


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