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Europa marca diferença à esquerda

por

susete Francisco  

Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã protagonizaram ontem um ombro a ombro equilibrado, no debate que opôs na RTP1 os dois candidatos mais à esquerda nas eleições presidenciais de 2006.

Com as diferenças entre os nomes apoiados pelo PCP e pelo BE - e foram as posições dos partidos que estiveram por vezes em discussão - a centrarem-se nas questões europeias, os oponentes quiseram notoriamente evitar um confronto aceso, recusando a ideia de uma corrida a dois. E não deixaram de lançar um "piscar de olho" ao eleitorado "flutuante" da esquerda mais à esquerda. Não desistimos

Os dois candidatos responderam com um rotundo "não" ao apelo lançado pelo dirigente socialista Jorge Coelho, para que a esquerda desista em favor de Mário Soares e qualificaram a questão como um problema do PS. "O apelo não tem razão de ser, a minha candidatura é para ir a votos. Pode haver aqui um problema, mas é do PS", sustentou Jerónimo de Sousa. "O PS desistiu antes de começar a campanha", disse também Louçã, acrescentando que foi o próprio PS "que entendeu chegar dividido a estas eleições", com Soares e Alegre. Desistir, nem pensar, concluiu. Questionados sobre motivações monetárias para as candidaturas, ambos recusaram. Louçã remeteu a questão para Cavaco, na única referência do debate ao candidato da direita.

A Europa...

Com Jerónimo e Louçã a identificarem vários pontos de convergência, a Europa foi a principal área de diferenciação - o candidato apoiado pelo PCP afastou-se do que diz ser a visão federalista de Louçã - "defendo outra Europa". "Federalismo é uma palavra vazia, sou europeísta", retorquiu Louçã. O Euro foi outro ponto de aberta discordância. "Portugal não deveria ter aderido à moeda única naquelas condições", defendeu Jerónimo, remetendo a falta de competitividade das empresas portuguesas para a política monetária. "Portugal não teria espaço, como a Suécia ou o Reino Unido, para não aderir", contrapôs Louçã, acrescentando que o mal está no Pacto de Estabilidade e Crescimento

... e a China

Mas foi a China que mais separou os dois candidatos. Depois de um esforço para evitar expressões mais críticas, já usadas por ambas as partes - Judite de Sousa lembrou que na última Festa do Avante Louçã foi apelidado de "grilo falante" e "vendedor de banha de cobra" - Louçã tentou colar o PCP ao Partido comunista chinês. "Há 30 anos quem é que estava com os dirigentes chineses que fizeram o que fizeram? Alguns estão no BE", respondeu Jerónimo. "E alguns no PCP", contrapôs Louçã.

Apesar de algumas farpas, os dois candidatos fizeram questão de afastar a ideia de que, dentro da corrida a Belém, protagonizam uma luta particular. Para um e para o outro, o grande adversário político destas eleições não estava ontem em estúdio.

Aborto

As divergências quanto a este tema já pertencem ao passado, mas não deixaram de ser lembradas num tom aceso. Se Francisco Louçã agora se juntou a Jerónimo de Sousa na defesa de que a lei deve ser alterada no Parlamento, o "alinhamento" anterior de Louçã ao lado do PS - em defesa de uma mudança da lei através de referendo - levou o candidato apoiado pelo PCP a acusar o oponente de "cumplicidade" no processo que ditou o adiamento da questão para 2006. É uma acusação "desajustada", retorquiu Louçã, devolvendo que "o PCP mudou de opinião" votou a favor da primeira proposta de referendo (vetada por Sampaio) e contra a segunda, alinhando-se então com a direita. "É abstruso", respondeu Jerónimo de Sousa: "Não votámos contra o referendo, mas contra o adiamento do problema."

Privatização da água

Concordância total contra o que defendeu Manuel Alegre, Jerónimo e Louçã não dissolveriam a Assembleia da República no caso de esta pretender a privatização do sector das águas. A questão é essencial, concordaram, defendendo que, na condição de chefes de Estado, promoveriam a ascensão de "um grande movimento de opinião" que defendesse um "rotundo não" a esta medida. O tema serviu de pretexto para a interpretação dos poderes presidenciais quanto ao uso da "bomba atómica da dissolução". "É uma interpretação circunstancial do Presidente, mas o PR não pode fazer disso uma arma de intervenção quotidiana", defendeu Louçã. Para Jerónimo, a questão está bem explícita na Constituição.

Casamentos

homossexuais

O assunto é claro nas palavras de Louçã o casamento de pessoas do mesmo sexo é um tema "que vai marcar a agenda do debate nacional", e Louçã está a favor. Jerónimo também, mas de forma bem mais difusa. O candidato apoiado pelo PCP defendeu que esta matéria deve ser "um processo de desenvolvimento em sociedade, antes de ser um processo legislativo".

Intervenções finais

Sem uma picardia, sem troca de palavras, foi o momento em que se notou que as relações não são exactamente pacíficas. Louçã chamou para a sua intervenção a memória de dois deputados comunistas - Lino de Carvalho e João Amaral - apontando-os como exemplo de uma "esquerda aberta e não sectária". João Amaral foi um dos principais nomes comunistas que, defendendo a renovação do partido, entrou em ruptura com a direcção do PCP. Já Jerónimo afirmou que a sua "não é uma candidatura de um homem só", ape- lando ao voto dos jovens e dos nomes da cultura e da ciência.


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