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"Havia três dias e três noites que a Salta-Pocinhas - raposeta matreira, fagueira, lambisqueira - corria os bosques, farejando, batendo ma-to, sem conseguir deitar a unha a outra caça além duns míseros gafanhotos, nem atinar com abrigo em que pudesse dormir um soninho descansado." É desta forma sugestiva que o escritor português Aquilino Ribeiro inicia a sua versão de O Romance da Raposa (edição da Bertrand), clássico juvenil que se encontra editado com ilustrações de Benjamin Rabier. E é no registo da fábula bucólica descomprometida, aligeirada por diálogos típicos da Beira Alta natal (o escritor nasceu na aldeia de Carregal, em 1895) que a obra fez história a partir da misteriosa raposa, nascida e criada vários séculos antes desta publicação.
Tal como o percurso sinuoso da raposa Salta-Pocinhas pelo bosque, a origem desta história não é consensual, mas sabe-se que a personagem surgiu entre os séculos XII e XIII e é um dos primeiros exemplos de uma figura reincidente nos contos de tradição oral que transitou para as páginas dos primeiros livros populares na Idade Medieval. Le Roman de Renart (título original de O Romance da Raposa) não apareceu primeiro como prosa literária compilada por um escritor célebre. Foi antes produto de múltiplos versos octossilábicos que monges copistas produziram como forma de usar o comportamento arisco de animais para, daí, dar lições de moral e bons costumes a um povo analfabeto a essência da fábula.
O estilo algo superficial dos manuscritos encontrados (quase sempre com direito a ilustrações) descreve Salta-Pocinhas como um herói marginal e mais esperto que as restantes personagens animais - as mais conhecidas são Tibert, o gato, Noble, o leão, e Isengrip, o lobo. Os episódios, inspirados na obra Fábulas de Esopo, revelam cruzadas, ataques a castelos e desrespeito pela autoridade.
Segundo o ensaio A Novela da Idade Média, da autoria do professor catedrático brasileiro Ricardo Costa, a história de O Romance da Raposa, tal como da maioria das fábulas da época, tinha funções sociais relevantes e um carácter disciplinar. Além de ajudar a reconhecer o papel divino, o conto levava o leitor (ou, na maior parte dos casos, o ouvinte) a "unir-se às virtudes e a odiar os vícios", confrontar "opiniões erróneas", questionar a ordem e satirizar o dia-a-dia. Ainda segundo Ricardo Costa, "a utopia medieval fornecia um caminho para se chegar à perfeição", no entanto, "o importante não era saber se o andarilho chegaria a realizar o seu modelo utópico no fim da caminhada e sim tentar trilhar sempre o caminho escolhido".
E é isso que tanto o Salta-Pocinhas da obra de Aquilino Ribeiro como o Reinaldo do filme de animação que hoje chega às salas nacionais procuram fazer usar as artimanhas e a astúcia de uma raposa para procurar subir na vida.
No filme de Thierry Schiel, o protagonista tem, em particular, um bom coração, característica que justifica a sua ousadia e facilita o processo de identificação com os jovens espectadores ao qual o filme se destina. Mas, cerca de oito séculos depois, a essência das per- sonagens e das situações carica- tas mantém-se. Tal como as his- tórias que ainda se contam sobre a raposa, matreira, e o lobo, ingénuo.
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