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"Gostava de desaparecer um dia, sem me despedir"

por

José Mário Silva

DN-Paulo Spranger  

Depois de publicar O Mal de Montano, qual foi o impulso que o levou a escrever Paris Nunca se Acaba [ambos editados pela Teorema]? Quis fazer uma recapitulação irónica da sua juventude na capital francesa e do período de dois anos em que aprendeu a ser escritor?

Na verdade, tudo começou com um convite para dar uma conferência, na Andaluzia, em que abordaria, de um ponto de vista teórico, o tema da ironia na literatura. Essa conferência era em Setembro [de 2002] e um mês antes fui a Paris com Paula, a minha mulher, preocupado com o facto de não conseguir fazer o que me pediam. Ao deambular pela cidade, narrava-lhe histórias e memórias de quando, muito jovem, vivia no Quartier Latin e frequentava, por exemplo, aquele mesmo Café Flore onde estávamos sentados. À medida que ia ironizando sobre a minha própria juventude, dei--me conta de que a conferência na Andaluzia podia ser, mais do que um estudo teórico, um exemplo prático da ironia aplicada a mim mesmo. Posso não saber teorizar sobre a ironia, mas sei ironizar sobre as minhas memórias. E foi isso que fiz em Paris Nunca se Acaba.

Uma dessas memórias, que ocupa um lugar central no livro, é a relação de vizinhança com Marguerite Duras, a escritora que lhe alugou umas águas-furtadas. O episódio era referido muitas vezes nas suas entrevistas, em tom de lenda. Ao contá-lo finalmente, com todos os detalhes, quis livrar-se de uma história que o perseguia?

Nunca fiz questão de contar essa lenda. Mas como estavam sempre a pedir-me que a contasse, decidi matá-la de vez neste livro. O que eu pretendi foi outra coisa explicar algo de mim aos leitores. Sempre inclui aspectos autobiográficos nas minhas narrativas, só que misturados com elementos de impostura. Em Paris Nunca se Acaba, pelo contrário, quis que o leitor soubesse coisas verdadeiras sobre mim.

A organização do livro é tudo menos linear. Há como que uma soma de fragmentos, de derivas, de digressões...

Os fragmentos fazem parte da estrutura da minha memória. Isto é algo que nenhum crítico espanhol compreendeu. A estrutura deste livro não foi copiada da estrutura de nenhum outro livro. É o espelho da forma como funciona a minha memória uma recordação puxa outra, que puxa outra, que puxa outra, e assim sucessivamente. O livro terminou, para mim, quando já não conseguia lembrar-me de mais histórias. Tudo o que vivi está ali.

Este processo de rememoração poderia ser aplicado a outros períodos da sua vida?

Não. Só vivi dois anos fora de Barcelona e foram os anos de Paris. O resto é vida quotidiana e a vida quotidiana não é uma viagem que mereça ser contada. Tudo é monótono, parecido, igual.

Aquela lista de regras para escrever um romance que lhe é dada por Marguerite Duras existiu mesmo?

Esse é o segredo mais bem guardado do livro. Até já me pediram o papel com a lista e parece haver quem o queira comprar. Mas a lista foi sobretudo o momento-chave em que descobri qual era o sentido do livro. Dei-me conta de que fui para Paris e alguém me disse como devia escrever. E como não obedeci à lista de Marguerite Duras, pude criar a minha própria ideia de literatura. Ao lembrar-me da lista oferecida naquele dia por Marguerite, apercebi-me de que a estrutura do livro era tão-só a história de alguém que foi a Paris aprender a escrever. Tinha dado um sentido ao livro.

O registo híbrido das suas últimas obras - onde mistura ficção, ensaio e autobiografia - também o encontramos, por exemplo, em W. G. Sebald. Acha que o futuro do romance passa por aqui?

Não. Acho que tudo vai continuar bastante parecido com o que é hoje. Foi muito bom ler Sebald e outros, mas o que eu faço não se parece com nada que conheça. A estrutura de O Mal de Montano é diferente de tudo. Se trabalho de forma híbrida é porque alcancei um certo ponto de liberdade na escrita. Quando quero contar alguma coisa, penso se a vou contar de uma forma ensaística ou como uma narração. O que faço são viagens mentais de grande liberdade. E a origem desta liberdade está mais no Quixote, está mais em Tristram Shandy.

Incomoda-o ser considerado um escritor para escritores?

Acho que essa imagem de autor minoritário deixou de fazer sentido porque em Espanha este livro já vendeu 40 mil exemplares. Embora continue a ser visto como um escritor de culto, não acho que seja um escritor para escritores. Creio que num momento determinado da minha vida comecei a dirigir-me aos leitores. Embora escreva para mim mesmo, nos últimos tempos tenho sempre muito em conta os leitores.

Isto apesar de ter começado, justamente no romance A Assassina Ilustrada, por querer matá-los...

Queria matar os leitores porque tinha medo de que se apercebessem de que eu não sabia escrever. A minha obra é como uma grande viagem na qual se foram incorporando muitos leitores através do tempo. Para mim, é uma satisfação que exista um círculo de leitores a acompanhar tudo o que faço, porque isto significa que consegui o que sempre quis fazer e que implica um trabalho imenso inventar os leitores. Criar leitores novos. Leitores para os meus livros. Os leitores vila-matianos. Leitores que comunicam uns com os outros.

Esses seus leitores vila-matianos são "doentes de literatura", têm o Mal de Montano?

Sim, porque para além de leitores têm que estar apaixonados pela literatura. São coisas diferentes.

Não sente o pânico de um dia deixar de querer escrever? Ou será que o fantasma do escritor ágrafo ficou arrumado com Bartleby & Companhia?

O fantasma não é deixar de escrever. O fantasma é um dia começar a notar que me repito. Nessa altura, terei que abandonar a escrita.

Mas Borges, por exemplo, repetia-se imenso.

Todos os escritores se repetem. E Borges repetia-se muito depois de ficar cego, quando já só ditava e se pôs a imitar os seus melhores livros. Quando perceber que me repito, e isso está contado num conto que dediquei a Salinger, retiro-me.

Sentirá angústia ou alívio?

Não sei. Esse momento ainda não chegou. Mas se fosse um alívio, significaria que estava à espera que acontecesse. E não estou.

Mas consegue imaginar a sua vida sem escrita?

Isso seria como desaparecer. E eu gostava, como está escrito em Doctor Pasavento, de desaparecer um dia, sem me despedir.

Desaparecer como muitas das suas personagens, numa espécie de apagamento súbito, definitivo e sem aviso. É isso?

É. Desaparecer apenas. Não gosto das pessoas que se estão sempre a despedir.


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