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por
a. M. G.
É uma cabana de dois esquimós à procura do sol, viagem fantástica e interior na cauda de duas estrelas que descem suavemente sobre eles, como "dois elevadores dourados" com a luz virada de avesso. É também um livro para crianças, que se abre como um cenário de teatro, intitulado Kô e Kó, os Dois Esquimós. Com texto de Pierre Gueguen, conta com ilustrações de Vieira da Silva e acaba de ser publicado numa belíssima edição da Gótica com Michel Chandeigne. A tradução é de Joana Cabral.
Os mesmos desenhos da pintora, mestre na desmultiplicação do espaço e na sua fragmentação, estiveram expostos em Lisboa, na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, em 2001, lado a lado com a ilustração de Os Desastres de Sofia, da Condessa de Ségur, incluída num livro oferecido a Violante Canto da Maya, filha do escultor.
Kô e Kó surgem, em 1933, numa série de guaches de Vieira realizados para 14 páginas. O livro, publicado em França pela galerista Jeanne Bucher, numa tiragem de 300 exemplares - dos quais 12 eram acompanhados, cada um, de um original, assinados e numerados -, integra duas pranchas com desenhos das personagens para o leitor recortar e poder montar.
Não será o pior método, este o de chegar a Vieira pelo lado dos livros que a pintora portuguesa, um dos nomes mais relevantes da Escola de Paris e do abstraccionismo lírico, ilustrou. Nesta sua faceta menos conhecida, detecta- -se o traço, a matéria visual, o processo de escrita. É ainda evidente uma poética do espaço e a explosão rítmica de formas e emoções.
Depois da guerra, Vieira da Silva participará no projecto Caderno de Juventude e "comentará" Zadig, de Voltaire, L'Oiseau Bleu, de Maeterlinck, ou Médico à Força, de Molière. Neste Kô e Kó, as árvores são, afinal, meninas com braços brancos, a terra parece um prato de farófias e as focas assustam os dois esquimós. A mão de Vieira dança, entretanto, por entre as letras como um anjo.
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