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por
joão pedro oliveira
Pontualmente à quinta-feira, a rádio faz-se palco de concerto. Ao vivo, em directo e em português, emitindo para o mundo a partir de um auditório com entrada livre.
Uma ideia simples mas absolutamente original que há dez anos vinga na grelha da Antena 1. Em data de aniversário, Armando Carvalhêda deita contas ao seu Viva a Música, o programa que idealizou em 1993 e começou a realizar três anos depois são já quase 500 emissões dedicadas a cerca de 200 convidados.
O mesmo será talvez dizer que poucos restam por convidar. "Por razões diversas", Carvalhêda lembra, "por exemplo, o José Mário Branco e os Madredeus, nomes essenciais que nunca passaram por aqui. Mas sim, quase toda a gente já por cá passou."
E a verdade é que quase toda a gente insiste em por ali passar. Porque não há, na rádio como na televisão, outro programa que dedique uma hora regular de emissão exclusiva ao trabalho de um músico ou grupo português. Antes, a emissão partia do auditório da RDP, nas Amoreiras, em Lisboa. Agora, que a rádio pública se transferiu para novas instalações, a falta de um espaço próprio levou o programa para o Teatro da Luz, onde todas as quintas-feiras, após o noticiário das 16.00, se esgota uma plateia de quase 200 lugares para assistir ao vivo a esse espectáculo que a rádio transmite em directo.
E quem esta rádio decide transmitir é escolha feita por "critérios necessariamente discutíveis, mas honestamente claros", que a equipa do Viva a Música assume. "Desde logo, não tem que ser a música que mais gostemos. É o critério do trabalho, da novidade, da busca de novos caminhos que sensibiliza a produção do programa. Não convidamos quem está na música como podia estar noutro negócio qualquer e busca apenas a fórmula certa para vender. Mesmo se vende 50 mil discos, não é importante."
E aí entramos na questão, delicada, do serviço público e da transmissão de valores. "Não há outra forma de o fazer", garante Carvalhêda, "não há serviço público sem critério." E, num programa de autor, os critérios e valores assumem sempre contornos pessoais. "Absolutamente. Assumo-o. Cantar em português, por exemplo, é para mim um critério fundamental. Nunca no Viva a Música se cantou noutra língua que não fosse o português. E admito que essa é uma escolha do autor, que não julga possível criar ou sonhar numa língua que não seja a nossa." Armando Carvalhêda leva muitos anos de rádio. Quantos? "Uma obscenidade, para cima de trinta." Tempo suficiente para se sentir espécie em vias de extinção. Porque o tempo é outro e a rádio também. "Hoje colocam-se em estúdio os técnicos certinhos, que não falhem o momento do gingle nem a playlist que alguém preparou. O bom profissional de rádio hoje já não é o autor, é o que é ágil de mãos para pôr o que lhe mandam pôr no momento certo. Os outros em que me incluo, daqui por dez anos são pré-história."
Pontualmente à quinta-feira, há um programa de autor que vai resistindo a essa lógica do tempo. Em nome de quê? "Antes de mais, da rádio. Talvez por defeito de formação ou geração, é minha convicção profunda que a rádio não se pode confinar às quatro paredes de um estúdio, tem que ir ao encontro das pessoas. De outra forma não sobreviverá. Depois, em nome da música portuguesa. Se não for a rádio de serviço público a promovê- -la, que o fará?"
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