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No DN de 12 de Novembro "há um texto a merecer reflexão numa página da secção Desporto fala-se num jovem jogador do Rio Ave (17 anos), chamado Fábio Coentrão ('não joga na Superliga - quatro minutos esta época frente ao Braga -, não joga pelas selecções - foi chamado para um estágio na segunda e terça-feira dos sub-18, depois de ter perdido um por lesão -, não é propriamente famoso') que 'é seguido por um clube estrangeiro', sobre quem fizeram um 'relatório detalhado e preciso' e cuja transferência 'pode salvar já o orçamento' do clube.
A questão é que, para além de não haver uma fotografia do jogador, este nãofaz uma declaração, sequer, ao jornal, não se diz que clube é esse, nem quem elaborou o dito relatório. Sobre o hipotético negócio, apenas se refere que o jogador é representado pelo 'empresário do momento', Jorge Mendes.
O jornalismo é feito de constrangimentos e de limitações. Escrevemos tantas vezes sobre casos dos quais não sabemos tudo e preservamos a identidade das fontes por diversas razões. Mas devo dizer que este artigo, em concreto, me parece mal defendido pelo jornalista. Não duvido que seja verdade o que lá vem escrito (até conheço relativamente bem as potencialidades do dito jogador, uma vez que assisto a quase todos os jogos do Rio Ave, do qual sou sócio) e que ele possa ser transferido, mas eu teriafeito de outra maneira - nomeadamente dando mais informações sobre o que está em causa (ou recusando revelar só uma parte da história)."
Isto escreveu João Paulo Meneses, no dia 13 de Novembro, no Blogouve-se (http//ouve-se.blogspot.com/). Considerei esta análise interessante e solicitei esclarecimentos ao jornalista, através do editor. O jornalista, António Pereira, respondeu não perceber "o enquadramento da (...) solicitação de onde vêm as críticas, que dúvidas são suas ou de leitores/bloggers (?). Agradecia que esclarecesse as posições e manifestasse as dúvidas concretas que lhe oferece o trabalho referido, sobre as quais prestarei os esclarecimentos necessários sem qualquer constrangimento".
O enquadramento parecia claro, mas solicitei ao leitor para concretizar a crítica pública. A resposta foi esta "Ninguém duvida que a comunicação social ajuda a valorizar (ou não...) um jogador - se estamos a falar de futebol. Os méritos técnicos (tácticos...) de cada jogador são muito importantes para a sua valorização externa, mas há formas de 'acelerar' a construção de uma boa imagem, recorrendo - por exemplo - à comunicação social.
Nesse domínio, o papel dos empresários dos jogadores não é negligenciável a promoção mediática que os seus jogadores venham a conseguir pode ajudá-los a conseguir melhores contratos - o mesmo é dizer, os jornalistas podem ser usados pelos empresários para precipitar um negócio.
Neste contexto, os jornalistas devem ser muito cautelosos (no futebol ou noutra actividade qualquer, como é óbvio, mas aqui fala-se do futebol). Até podem estar a beneficiar (ou a prejudicar) alguma parte, isso é normal, mas acima disso está o seu comportamento jornalístico, que deve ser técnica e deontologicamente irrepreensível.
É aqui que acho que o jornalista do DN falhou o caso até pode dar uma boa estória (e vir a confirmar- -se), mas depois de ler o texto fiquei com uma certa sensação de vazio:
- Qual é o clube que o quer contratar?
- Quem fez o dito relatório?
- Porque não se falou com o jogador?
- Porque não se falou (fazendo perguntas claras) ao empresário - que é citado - sobre o negócio?
- Porque é que o presidente do clube não fala sobre a hipótese de negócio?
Recordo que o ponto de partida que segura a peça é 'Aos 17 anos, Fábio é seguido por um clube estrangeiro e pode salvar já o orçamento' (e não um trabalho sobre as camadas jovens do Rio Ave Futebol Clube)."
A prometida reacção não veio. No silêncio, fica a ideia de que deveriam ter sido ouvidas as fontes interessadas, desde o próprio jogador ao presidente do clube e ao empresário, bem como deveria ter sido dada a conhecer a origem do relatório. A fonte mais visível na notícia é o relatório. O que foi um excelente ponto de partida, mas não poderia ter sido o ponto de chegada. A informação poderia ser melhor contextualizada e diversificada. O trabalho dos jornalistas é acrescentar mais-valia informativa aos factos. Não parece ter sido este o caso da peça sobre o jogador do Rio Ave. O que não houve mais que um som não sabe mais que um tom, diz o povo. É essa a tarefa do jornalista revelar perspectivas múltiplas para que o leitor possa ajuizar, a partir da informação coligida.
Um estudo recente feito por uma instituição dinamarquesa, Mandag Morgen, e pela Play the Game revelou que, no jornalismo desportivo, não é invulgar as fontes serem escassas. A investigação baseou-se num inquérito a 37 jornais de dez países de todo o mundo Austrália, Áustria, Dinamarca, Inglaterra, Alemanha, Noruega, Roménia, Escócia, Suíça e EUA. No Público de 13 de Novembro, num trabalho de Duarte Ladeiras que divulgava esse estudo, referia-se que 20 por cento dos artigos desportivos analisados não citavam qualquer fonte e 40 por cento tinham apenas uma só fonte. Só 1600 de 10 007 artigos analisados referiam três ou mais fontes. Ou seja, no jornalismo desportivo a pluralidade de fontes não é uma prática maioritária. Seria preciso um estudo que demonstrasse que noutras áreas do jornalismo haverá tendências diferentes. De qualquer forma, jornalismo e pluralidade de fontes são sinónimos. Ao contrário dos blogues, por exemplo, que ninguém censurará se tiverem como fonte apenas o seu autor.
Jornalismo e pluralidade de fontes são sinónimos
Provedor dos leitores
José Carlos
Abrantes
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