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ANA FILIPE SILVEIRA
"Não estou aqui só para escrever histórias, por mais que goste de o fazer. Estou aqui para promover a amizade, a bondade, a lealdade e todas as coisas que as crianças devem aprender." Quem o afirmou foi Enid Blyton, que sempre quis mostrar que era possível entreter as crianças sem recorrer à violência. A avaliar pela afluência de pequenos espectadores à Casa da Música, no Porto, e a que se espera entre hoje e dia 4 no espectáculo Noddy Live no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, pode dizer-se que "A Máquina", alcunha pela qual a autora era conhecida no universo literário, foi bem sucedida.
Mas o êxito de Noddy (expressão que, em inglês, é usada para denominar alguém que está sempre a dizer que sim com a cabeça) não é um fenómeno recente. Corria o ano de 1949 quando a escritora de livros infanto-juvenis mais popular de todos os tempos publicou a primeira aventura deste personagem. Noddy Goes to Toyland (na foto, um exemplar da obra), assim se intitulou o livro ilustrado pelo cartunista dinamarquês Harmsen van der Beek, teve êxito imediato.
Durante os 56 anos que se seguiram, o "filho de madeira", de Enid Blyton, foi o melhor amigo de gerações e gerações de crianças, que descobriram com entusiasmo cada vez maior as inocentes aventuras do pequeno boneco, sempre importunado pelos malvados duendes Sonso e Mafarrico e "salvo" pelos amigos Orelhas e Senhor Lei.
O período mais conturbado da vida de Noddy, baptizado em França (o primeiro país a traduzir os livros de Blyton) de "Oui-Oui", remonta à década de 60. Na sequência das críticas às obras da escritora britânica, acusada de banalidade, snobismo e xenofobia - os vilões da colecção de livros de aventuras Os Cinco são sempre estrangeiros - surgiu uma campanha anti-Noddy, que apontava o dedo ao famoso habitante da Cidade dos Brinquedos e ao seu amigo e mentor Orelhas, apelidando-os de "perversos". As razões prendiam-se com o facto de viverem juntos.
Foram essencialmente os bibliotecários de vários países que se manifestaram contra as publicações. Durante algum tempo, juntaram-se para protagonizarem cerimoniais onde queimavam os livros do Noddy, cuja venda acabou mesmo por ser proibida em Inglaterra, na Austrália e na Nova Zelândia. Nos anos 70, o personagem negro que integrava as histórias e que dava pelo nome de Gollywog foi retirado das narrativas - sob a acusação de fomentar o racismo - e as odisseias do Noddy e dos seus companheiros regressaram às estantes daqueles países.
Apesar do "incidente", a popularidade do boneco não foi perturbada e Enid Blyton resolveu não dar importância "a críticos com mais de 12 anos".
Desde então, Noddy e o seu mundo mágico não mais pararam de angariar novos adeptos em todo o mundo, justificando o nascimento e crescimento de uma infindável gama de produtos com e sobre o rapaz promotor da honestidade e da benevolência. Dos livros que apresentam desenhos para pintar aos autocolantes reutilizáveis, passando pelos brinquedos e pelos jogos (existem muitos mais do que quaisquer outros com um boneco inglês), pela banda desenhada, pela Sétima Arte (o primeiro e único filme, Noddy In Toyland, foi realizado em 1957 por Maclean Rogers), pelos DVD e CD, pelos toques e capas para os telemóveis, pelas peças de vestuário e pelos acessórios, muitos são os indícios de sucesso do menino idealizado por Enid Blyton.
Mas foram as séries de televisão, as mais recentes a três dimensões e quase todas destinadas a crianças dos três aos sete anos, que contribuíram para o incremento da fama do brinquedo. Quando os EUA aderiram a esta "febre", há apenas cerca de oito anos, foram encomendados os livros da escritora adaptados do inglês para o estilo de linguagem americana e acompanhados por uma produção televisiva da BBC Worldwide. Esta teve direito à maior verba que a cadeia britânica deu, até então, a um programa infantil.
E, para quem não sabe, fica a advertência em terras nacionais, o Noddy pode ser acompanhado através do canal 2:, que exibe, de segunda a sexta-feira, no espaço Zig Zag (19.45), Abram Alas para o Noddy. Esta série transporta para o pequeno ecrã as provações originais que a "mãe" Blyton criou para o herói de palmo e meio.
Produzida desde 2001 pela dupla Paul Sabella e Jonathan Dern, Make Way for Noddy (título original) recorre a efeitos visuais conseguidos através de imagens computorizadas, tornando as histórias ainda mais atractivas para as futuras gerações de crianças.
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