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Paula Mourato
"Poesia. Os blogues das mulheres são só poemas." Esta é a opinião manifestada por um homem a Isabel Ventura, mestranda em Estudos sobre Mulheres, quando realizava um inquérito sobre o que são blogues no feminino. Mas esses recentes diários virtuais "são muito mais do que poesia ou relatos do dia-a-dia", afirma ao DN Isabel Ventura.
Já a jornalista Carla Quevedo, autora do Bomba Inteligente, diz que as mulheres abordam qualquer assunto na blogosfera. "Falam literalmente de tricô, como Hilda Portela ou Rosa Pomar, ou dos filhos, como Vieira do Mar no Passeai, Flores! Falam da actualidade, de política, de sexo, de homens, de compras, de touradas, de animais, de economia, de futebol, do quotidiano, de moda, de cinema, de literatura. As diferenças no modo como observam os temas estão relacionadas com o que são como pessoas e não com o simples facto de serem mulheres", considera a jornalista.
Por outro lado, a autora do blogue Controversa Maresia sublinha que a falta de humor é um mal dos blogues em geral e dos masculinos em particular. "Os blogues masculinos são demasiado sérios porque os homens se levam demasiado a sério e não têm grande capacidade de gozar com as suas próprias misérias", refere Vieira do Mar.
Os assuntos de que falam as mulheres na blogosfera foram recentemente tema de discussão no ciclo Falar de Blogues, moderado por José Carlos Abrantes, na livraria Almedina, em Lisboa. A propósito do ciclo, Isabel Ventura analisou cinco blogues no feminino Uns & Outras, Síndrome de Estocolmo, Mulheres e Deusas, Com o Sotaque Francês e Blogotinha. "Exigem ou denunciam situações de igualdade ou desigualdade. São actos políticos porque contam, partilham e reivindicam um determinado espaço que assume uma identidade de género", explica. "Não se pode dizer que as mulheres têm um papel mais intimista na blogosfera do que os homens. Não há grandes distinções, mas sim motivações individuais. Usam os blogues como uma forma de assumir um papel político, ainda que inconsciente, ao adoptarem uma posição", indica. Para Isabel Ventura, no fundo "é uma forma de dar recados, de comunicar". O blogue é hoje um acesso "a um espaço público que, apesar de ser limitado, é ilimitado ao mesmo tempo. Além disso, é poder escrever para muito mais pessoas".
Presente na conferência, Carla Quevedo explicou o seu percurso. "Tudo começou por piada. Participava no Pastilhas, o site do Miguel Esteves Cardoso, quando, um dia, o Macguffin apresentou o seu blogue Contra a Corrente. Gostei muito da ideia e decidi experimentar." Para Carla Quevedo, o sexo de quem escreve não é relevante. "Nem penso nisso", diz. "Até porque é difícil saber. No dia em que publiquei no blogue uma curta gravação com a minha voz, recebi uma série de e-mails de leitores a desculparem-se por terem achado que eu era um homem. Não me lembro se terá sido a primeira vez que me insultaram, mas foi certamente a primeira em que me senti ofendida", confessa sorrindo.
Convidada também para o debate, Isabel Matos Ferreira, autora do blogue Miss Pearls, conta que a ideia de fazer um blogue partiu de um e-mail que recebeu com posts do Coluna Infame. "Gostamos que as pessoas saibam das nossas tontices e que nós assumimos essas tontices", afirma. Questionada sobre o que motiva as autoras dos blogues, responde com graça "A minha mãe fazia muito ponto cruz para se distrair. Como não tenho jeito para as delícias do lar, criei um blogue." Apesar de reconhecer que dá muito trabalho, diz que escreve por diversão. "Enquanto estou ali não penso em mais nada e se isso é um motivo, é o meu", graceja, ainda, Isabel.
Outra mulher que testemunhou a sua experiência foi Patrícia Antoniete, co-autora do brasileiro Megeras Magérrimas. A advogada conta que o blogue surgiu de uma "necessidade de emagrecer rapidamente". Mas o "vício" de blogar engordou tanto que Patrícia e Roberta, a outra autora, até fizeram um "pacto pré-nupcial". "Mesmo que nos 'divorciemos', o Megeras continua", garantiu. "Sou uma incontinente literária e quando achei um lugar onde podia escrever foi uma alegria. O meu acto político é mostrar que nós podemos ser diferentes", sublinha Patrícia.
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