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armando rafael
Há 34 voos suspeitos, que passaram por Portugal entre Junho de 2002 e Julho de 2004, e que poderão ter sido utilizado nas operações clandestinas da CIA, envolvendo rapto, sequestro e transporte de alegados terroristas.
Um deles fez escala no aeroporto de Santa Maria, nos Açores, em Novembro de 2003, e teve como destino a base norte-americana de Guantánamo, em Cuba, onde os EUA têm concentrado - em regime de total isolamento - quase todos os elementos capturados no Afeganistão e no Iraque e que são acusados de terem pertencido às redes da Al-Qaeda e de Ussama ben Laden.
De acordo com os dados obtidos pelo DN, o voo em causa foi operado pela Richmor Aviation, uma companhia criada em 1967, e que é conhecida no mercado pelos serviços que presta à CIA e outras estruturas idênticas dos EUA.
Como qualquer companhia aérea, a Richmor Aviation, que está sediada em Houston, no estado do Texas, presta serviços a quem a contrata, razão pela qual um outro avião da empresa - o Gulfstream IV com a matrícula N227SV - foi avistado em Tires, em Maio deste ano. Só que desta vez, o aparelho da Richmor Aviation estava, aparentemente, ao serviço de alguns convidados do Laureus World Sports Academy, uma instituição de beneficência, que organizou uma noite de gala no dia 16, no Casino do Estoril.
Curiosamente, entre os 34 voos suspeitos detectados pelo DN, só 15 foram operados pela empresa Richmor Aviation. Os restantes pertenceram à Jeppesen Dataplan, uma outra companhia charter norte-americana, que tem três agentes autorizados em Portugal.
Ao que o DN apurou, quer os voos da Richmor Aviation, quer os da Jeppesen Dataplan que passaram por Portugal tiveram - pelo menos oficialmente - natureza comercial ou semelhante. O que poderá ajudar a explicar a ausência de quaisquer registos a nível governamental. Quanto mais não seja porque este tipo de voo não é, tratando-se de uma escala, habitualmente sujeito a qualquer controlo policial ou alfandegário. Salvo se existirem passageiros a embarcar ou a desembarcar ou cargas em trânsito. O que não aconteceu com 27 destes 34 voos. Nos restantes, três dos quais se destinavam a Marrocos e à Argélia, houve desembarque de passageiros 29 no total. Num outro voo, que em Setembro de 2002 se dirigiu para Cabul, entraram cinco passageiros. Nos dados recolhidos pelo DN não existem quaisquer registos de carga.
Assim sendo, e tendo apenas em conta as escalas dos voos efectuados depois dos atentados de Nova Iorque, e sobretudo depois das intervenções dos EUA no Afeganistão e no Iraque, Portugal dificilmente conseguirá saber o que ia a bordo destes aviões que fizeram escala nos aeroportos nacionais.
Segundo fontes consultadas pelo DN, mesmo que estes aparelhos tenham servido - e aparentemente alguns serviram - para o rapto, sequestro ou transporte de supostos terroristas capturados pela CIA, Lisboa não tem meio de o saber. E se soubesse, não existiria nenhum tipo de registo oficial. Isto porque, mensagens ou comunicações desta natureza - mesmo entre aliados - só são transmitidas (quando o são) oralmente. E sempre ao mais alto nível.
Apesar disso, há rotas que levantam mais suspeitas do que outras. E entre elas estão destinos tão diferentes como Rabat (Marrocos), Cabul (Afeganistão), Argel (Argélia), Baku (Azerbeijão) ou Tuzla (Bósnia-Herzegovina). Locais que têm vindo a ser referenciados nestas operações clandestinas que os EUA estão a efectuar à revelia do direito internacional. Um dos aparelhos mais apontados, o Boeing 737 com a matrícula N313P (Jeppesen Dataplan), já passou por cá. Foi em Agosto de 2003. Chegou de Argel e partiu para Baku.
Significativo, apesar disso, é que a esmagadora maioria destes voos operados pela Richmor Aviation e pela Jeppesen Dataplan tenham passado pelo Aeroporto Sá Carneiro, no Porto, e que só 12 tenham feito outras escalas cinco em Lisboa ou Tires; quatro em Faro; dois em Santa Maria; e um na Horta. O que poderá ser explicado com as taxas de ocupação e de movimento dos aeroportos.
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