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artes

"As sociedades são cada vez mais individualistas"

por

manuela paixão

correspondente em roma  

Como nasceu a ideia de Ferro 3, no qual um jovem entra em casas de pessoas que andam em viagem ou estão de férias, habitando-as e cuidando delas como se fosse ele o dono?

Foi a partir de um prospecto que encontrei na minha caixa de correio, um dia, ao voltar para casa. Gosto da ideia de poder ver uma casa estranha por dentro. De me introduzir numa intimidade à qual sou totalmente alheio. Assim exprimo a minha crítica ao estilo de vida coreano, e ao crescente vazio das nossas vidas.

O título é enigmático. Qual é o seu significado?

O "ferro 3" é o taco de golfe mais forte e pesado, e também o mais difícil de usar. Adapta-se bem à imagem do herói do filme.

A solidão e o silêncio são os dois elementos mais fortes de Ferro 3. Qual a importância de cada um deles?

Tanto o rapaz como a mulher casada que ele encontra sofrem de solidão. Ele quer aliviá-la ocupando as casas vazias e dando-lhes vida. O silêncio, porém, não impede que os dois se conheçam e se apaixonem um pelo outro. As sociedades de hoje tendem cada vez mais para o individualismo. Dantes, na Coreia do Sul, as pessoas tinham confiança umas nas outras, mas nos tempos que correm mantêm cada vez mais as distâncias. Na minha opinião, as pessoas podem perfeitamente perceber-se umas às outras em silêncio, sem precisarem de falar. Os dois protagonistas de Ferro 3 aproximam-se um do outro sem trocarem sequer uma palavra. Se o público perceber isto, é porque entrou no meu filme.

No Festival de Veneza de 2004, onde Ferro 3competiu e ganhou o Prémio de Realização, muita gente encarou este filme como sendo uma comédia. Ficou surpreendido?

Às vezes, introduzo cenas cómicas nos meus filmes, quando a história se torna demasiado melancólica. Mas o efeito cómico foi um pouco uma surpresa, não o esperava.

O filme tem um lado quase sobrenatural o jovem é quase um fantasma. Na prisão, o guarda não o vê, e, no final, consegue estar perto da mulher que ama, que foi obrigada a voltar para o marido. Esta dimensão fantástica é simbólica ou literal?

O filme pode ter diversas leituras. Pode ser um sonho dele ou um sonho dela. Pode ser visto também como um filme sobre uma casa vazia que, no final, fica cheia de vida. A questão da invisibilidade da personagem tem a ver com o facto de eu achar que o mundo em que vivemos hoje é uma mistura de realidade e de sonho. Sinto que a mente e o corpo se movem cada vez mais em níveis separados. Por outro lado, sempre pensei como seria experimentar uma situação de invisibilidade, e daí o rapaz ser capaz disso. Gostava muito de o poder imitar...

Os seus filmes costumam lidar com personagens envolvidas em situações extremas, de paz ou de violência. Porquê?

Porque a coisa mais pacífica e bela pode ser igual à coisa mais cruel e dura. O bem e o mal não se podem perceber na ausência um do outro. Um explica o outro. E há sempre confrontos extremos nos meus filmes, porque dentro de cada um de nós existem dois antagonistas em luta permanente. Tento sempre contar histórias em que as personagens são completamente diferentes mas acabam por se complementar uma à outra. E penso que a alegria e a tristeza são expressões de um mesmo sentimento.

Como explica o facto de os seus filmes serem populares na Coreia do Sul e também no Ocidente?

Os críticos são da opinião de que os meus filmes são considerados "exóticos", quer pelo público coreano quer pelo público ocidental. Claro que há grandes diferenças entre as pessoas e os povos, diferenças que são culturais, geográficas, de mentalidades, etc. Mas eu acredito que, no fundo, o ser humano é um só, que as pessoas não são assim tão diferentes uma das outras. E uma das provas é a forma como elas costumam reagir aos meus filmes, onde quer que estejam.


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