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por
david mandim
Manuel Alegre apressou-se a confessar uma "certa emoção" por estar na cidade do Porto. Mais ainda, por inaugurar a sua sede de campanha num segundo andar de um edifício da Praça Carlos Alberto, muito perto da varanda, onde, em 1958, o general Humberto Delgado "deu uma grande sacudidela no medo e abalou o regime" salazarista.
Volvidos 47 anos, Alegre propõe também uma "sacudidela", agora "no marasmo, no seguidismo" e "renovar os ideais do 25 de Abril". E não resistiu, qual candidato sem medo, a ir à varanda saudar a meia centena de apoiantes que estavam na praça portuense.
Com uma candidatura que "é um acto de liberdade", Manuel Alegre seguiu a evocação de Humberto Delgado para criticar aque-les que estão na política "menos por convicção que por carreiris- mo e não por fidelidade à democracia". "Não me candidato contra ninguém. Tenho uma causa e um projecto", assegurou, ladeado pelo futebolista Jorge Costa - "se fosse treinador seria sempre primeira escolha" -, pelo músico Pedro Abrunhosa -a quem, por engano, chamou Rui - e pelo ar-quitecto Manuel Correia Vicen- te, seu mandatário distrital. Também o escritor Mário Cláudio enviou uma mensagem de apoio.
"Cumprir e fazer cumprir a constituição" é o objectivo do candidato que recusa ser menorizado. "Estou a lutar para ser eleito. Não sou um candidato marginal. Quero evitar a eleição de Cavaco Silva na primeira volta, para na segunda volta, com toda a esquerda e com todos os portugueses" ser eleito presidente, disse o deputado socialista, consciente que o "combate é difícil, porventura desigual, mas vale a pena".
"Mas não há vencedores antecipados", afirmou. "Quiseram coroar o candidato Cavaco Silva, mas ele vai ter que ir à luta, aos debates, disputar a eleição com outros candidatos", acrescentou, para logo completar "Mas não é apenas para travar um candidato, é ter um projecto." E neste projecto encaixa "um presidente da República que deve ter um papel activo, que seja um provedor da democracia".
Por isso, se chegar a Belém, Alegre promete "não falar das forças do bloqueio" e questionar logo a Assembleia da República se "candidatos pronunciados pela Justiça poderão ser eleitos para cargos públicos". Alegre considera que é mau "Não creio que seja um acto prestigiante para a democracia."
Na sua intervenção, insistiu que é o único a correr sem o "apoio de nenhum partido" e sem "nenhuns interesses por detrás". Isto para dizer que a candidatura tem poucos meios mas é apoiada por gente sincera e com causas. "Comovo-me muito quando chegam cheques de cinco ou dez euros", disse.
Caso seja eleito, pretende lutar por tornar "os direitos políticos inseparáveis dos direitos sociais". É tempo de mudar, porque "há trinta anos se pedem sacrifícios ao povo". Agora, Alegre deseja que "os custos das mudanças sejam repartidos por todos".
Foi o final de um dia totalmente passado no Porto. De manhã, Alegre visitou a delegação do Instituto Português de Sangue, onde criticou o aumento das taxas moderadoras, anunciado pelo ministro Correia de Campos. "Temos de ter consciência que temos um País com dois milhões de cidadãos em estado de pobreza, mais meio milhão de desempregados e muita gente a viver de um salário mínimo que é dos mais baixos da Europa", justificou.
No dia temático da inovação, o candidato defendeu uma aposta no conhecimento tecnológico e científico, patente na actividade do instituto. À tarde, e depois de um almoço com dirigentes da Federação de Associações Juvenis, visitou uma empresa de informática em Perafita, Matosinhos, que definiu como um bom exemplo de empreendedorismo.
Pelo meio, em declarações aos jornalistas, reagiu irritado a um comentário de Mário Soares. O adversário sugeriu que todos os candidatos apresentassem o boletim médico e Alegre não gostou das palavras de "muito mau gosto". "Com isso não se brinca. Toda a gente sabe que tive um enfarte e que recuperei. Estou perfeitamente em condições, segundo a opinião dos meus médicos."
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