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catarina homem marques
Nem sempre as fronteiras políticas definem a cultura ou as tradições dos povos. A Galiza (Espanha) e a região norte de Portugal são uma prova disso mesmo. Duas regiões de países diferentes, que mantêm uma tradição oral muito próxima. A candidatura das tradições orais galego-portuguesas a Obra-Mestra do Património Imaterial da Humanidade foi apresentada ontem , no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, como mais um passo na luta pela preservação desta herança cultural, em risco de desaparecimento. Esta apresentação segue-se a outras já realizadas noutras cidades, como o Porto, Madrid ou Bruxelas, e integra-se num processo de pressão final, que culminará em Paris, a 18 de Novembro, a sete dias da deliberação da UNESCO.
Pela primeira vez, dois países apresentam uma candidatura conjunta a património imaterial. As duas regiões, divididas pelo rio Minho, formam entre si uma ponte de troca cultural, que vai da música ao lirismo, passando pelos trajes, paisagens, ofícios tradicionais e festas, e que encontra a sua expressão mais viva na tradição oral. "É preciso tomarmos consciência da nossa riqueza patrimonial. Como herdeiros orgulhosos deste património, queremos dá-lo a conhecer ao mundo", diz Álvaro Campelo, um dos responsáveis pelo dossier de candidatura apresentado à UNESCO em Outubro de 2004.
No próximo dia 25 é anunciada a decisão, e as expectativas são elevadas. "Atravessar o rio Minho é como atravessar o hall de uma casa que já é comum. A proclamação é certa", afirma, confiante, Helena Gil, representante da Delegação Regional de Cultura do Norte. Uma voz de optimismo que exprime o espírito do projecto. "Esperamos estar entre os nomeados", diz Lurdes Carita, da associação Ponte... nas Ondas!, o motor de arranque da candidatura. Mas, mesmo que as coisas corram mal, "Portugal e Galiza têm um património, e quem tem um património tem um futuro", acrescenta.
Castelos, conventos e monumentos em geral simbolizam uma identidade histórica e exigem uma preservação cuidada. Mas os sons, os gestos, as emoções, os dizeres e as formas de dizer são elementos culturais ainda mais delicados, que se perdem no tempo com facilidade. É disso que se trata quando se fala de património imaterial. A cultura comum galego-portuguesa tem sido posta em causa pela história, pelas fronteiras e pelas modificações sociais, e o caminho para que não se perca de vez passa pela possibilidade desta nomeação. Se a UNESCO aprovar a validade do projecto, dar-se-á início a um trabalho de reconhecimento internacional e de desenvolvimento sustentado das regiões envolvidas, em termos de economia e turismo, que será a base da preservação de uma tradição oral que tem dificuldade em sustentar-se apenas pela força do costume.
A campanha tem como pilar o trabalho de escolas dos dois lados da fronteira, é apoiada pelos eurodeputados portugueses e espanhóis e apresenta assinaturas de nomes como José Saramago e Frederico Mayor Zaragoza. Espera-se agora a aprovação da UNESCO, para que o galego-português não se perca no passado.
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