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Toda a verdade de Filomena Mónica

por

João Céu e silva  

Há que ter pouca vergonha quando se decide escrever as suas próprias memórias. De outro modo, o autor(a) não terá o à-vontade necessário para se revelar em público, coragem para se contar e falar de si com a verdade que o relato necessita. Por isso mesmo, o livro que Maria Filomena Mónica irá lançar na próxima quarta-feira, às 18.30 no Grémio Literário em Lisboa, servirá para tirar a prova dos nove no que respeita a essa questão.

O título é tão simples como original Bilhete de Identidade; o subtítulo completa-o com a cronologia que data a biografia que nos é contada neste primeiro volume Memórias 1943-1976. Estas palavras são encimadas pelo nome da autora e a sua parte numa fotografia tirada em 1964 - com a filha Sofia ao colo. Na contracapa, um pequeno lote de palavras resume ao que vamos "Num país sem tradição memorialística, no qual as poucas obras que existem representam a justificação de acções pretéritas, Maria Filomena Mónica procura apresentar a sua vida sem glorificações nem lamúrias." Diz-se ainda que a autora "não presume fornecer a Verdade, mas apenas a sua verdade".

Estará tudo dito na capa e contracapa? Não, porque ao percorrermos três centenas e meia de páginas deste volume vamos ao encontro de uma história quase pessoal, deliciosamente contada e que não peca por esconder muitos dos factos que o leitor suspeita terem existido na vida de uma mulher bonita - quanto ao inteligente já lá iremos.

Maria Filomena Mónica não esconde esse lado da sua vida e até o relata com alguma ênfase quando diz "Foi por esta altura que, através do olhar dos outros, percebi ser bonita"; ou, logo a seguir: "O truque consistia em usar o cinto muito apertado, a fim de enfunar a parte de baixo, de forma a poder mostrar os meus joelhos, a parte da anatomia que, a seguir aos tornozelos, considerava ser a mais interessante do meu corpo"; e ainda quando revela o que essa particularidade interferia na sua vida: "Eu era uma menina loira e, por definição, pouco inteligente. Os 'intelectuais' que, pelos corredores, se passeavam, não se dignavam falar-me. O único que o ousou foi um jovem açoriano, o José Medeiros Ferreira. Magro, baixinho e com uma barba engraçada, tinha um ar traquinas."

São pormenores destes que tornam a leitura entusiasmante porque a autora consegue transmitir nesta sua biografia um grau de fiabilidade de memória muito grande, seja por socorrer-se dos seus diários, dos de família, seja por ter feito investigações para descobrir pontas de fios familiares que desconhecia até se ter metido nesta aventura. Como é o caso de ter sabido apenas que a mãe era filha ilegítima após a sua morte. Aliás, a forma como lida com esta e outras descobertas mostra a ausência de complexos com que abraçou o projecto e que, ao envolver uma série de pessoas ainda vivas nos episódios que conta, não merece qualquer censura. Diga-se que esta convivência é um dos "picantes" do livro e que, a ser continuado em se- gundo tomo, ainda mais curiosidade poderá provocar nos visados e leitores e ser um trunfo a nunca desperdiçar, pois é uma garantia para a veracidade deste projecto. Há, ao leitor, que evitar este lado de voyeur no Bilhete de Identidade porque se cair em tal tentação irá perder muito do retrato que a investigadora faz do Portugal do Estado Novo. Que, além de divertidíssimo, mostra como foi o percurso de muitos jovens no tempo con- turbado do regime de Salazar e Caetano, distraídos e apolíticos, e confrontados com a revolução que lhes cai ao colo numa madrugada. Esses anos de Abril ainda surgem palidamente passados a livro e, decerto, serão avivados no próximo, como agora tão bem sucede com a sua passagem pela Universidade de Oxford e o percurso académico.

Nesse retrato que faz de si própria ao longo dos 33 primeiros anos de vida, Maria Filomena Mónica acaba por o transformar num retrato sociológico - e antológico - de uma geração que ainda hoje está no poder, ou por perto, exibindo a sua vida como um filme de muitas horas, que se vê sem doer o rabo.

Principalmente, espanta-nos a ingenuidade de um sexo feminino que cresce numa capital e ignora quase tudo sobre os factos da vida, não sendo de estranhar que, como aconteceu à autora, engravidasse na primeira vez que experimentou as delícias do amor. A ler!


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