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antónio pedro pereira
A história de Fábio Coentrão tem algo de conto de fadas. Do género Cinderela com meia dúzia de minutos acumulados na Superliga (vai na segunda época), sem registo nas selecções, com uma evolução social conturbada, o extremo-esquerdo conseguiu ainda assim chegar à montra do futebol europeu. Tem um clube estrangeiro a seguir-lhe cada passo, pronto a fazer de Fábio o fruto de um pomar que o Rio Ave ainda está a plantar.
O clube de Vila do Conde apostou esta época na profissionalização da formação, bebendo no modelo Ajax (uma só estratégia e um estilo para todas as equipas - "se vir um treino dos seniores ou dos iniciados não vê nenhuma diferença, além das cargas"), para rentabilizar Fábios e Miguelitos (vendido ao Nacional no Verão) que possam tornar o futuro sustentável. Ou como diz Paulo Carvalho, presidente do Rio Ave, com fatalismo "Não há outra solução para sobreviver financeiramente no futebol português." "Nem os três grandes têm outra alternativa", acrescenta, atribuindo a estabilidade do Rio Ave "à tranquilidade" com que se trabalha na casa. E ao critério.
Saíram 12 jogadores, saiu Carlos Brito, mas a equipa mantém- -se como bom exemplo de estilo e fora das zonas de pressão - veja-se a classificação 8.º, a três pontos do Benfica, que é 4.º, e ao qual impôs um 2-2, na Luz, na semana passada. "Escolhemos o António Sousa porque sabíamos que encaixaria na filosofia de promoção da formação. Perguntei-lhe se queria mudar alguma coisa na estrutura e ele disse-me que não, nada", resume. Ou seja, a estrutura do Rio Ave, que esta época foi valorizada com um gabinete de prospecção orientado pelo ex-jogador da casa João Eusébio, tem sido literalmente trave mestra da qualidade consolidada nos últimos três anos. "É um aumento de despesas fixas, com os salários, as máquinas, que achamos compensar: isto vai dar resultados", acredita Paulo Carvalho.
"Isto" é a sobrevivência do clube à custa da formação de jovens valores a um ritmo que compense a escassez de receitas salvam-se as que vêm da televisão, perdem--se as de bilheteiras, venda de produtos do clube e patrocínios. Com os exemplos do passado, casos mais recentes de Paulinho Santos ou Luís Coentrão, a convicção de Paulo Carvalho fortalece-se com o fruto antes da sementeira.
Fábio é ainda meramente conhecido, apesar de até o Benfica ter reparado nele e ter perguntado por ele, mas concentra as potencialidades que sustentam o positivismo do presidente do Rio Ave. "Esta é uma zona pobre em que ainda se vê os miúdos jogar na rua todos os dias. A capacidade de sacrifício está lá toda", aponta sobre as vantagens do meio.
E Fábio é desta estirpe - com algum dramatismo pelo meio. Nascido nas Caxinas, ficou entregue a uma tia pouco presente, após uma emigração compulsiva dos pais, a contas com problemas de ordem financeira. Ficou, como diz o presidente da Câmara de Vila do Conde, Mário Almeida, "entregue a si próprio numa idade de muitos conflitos". Foi o salto, aos 16 anos, para o plantel profissional que o resgatou dos perigos da adolescência. "As escolas de formação têm agora melhor organização", disse Fábio após a estreia na Liga, frente ao Braga, dando razão a Paulo Carvalho, que vê o futuro abraçar o seu optimismo ainda antes de o pomar começar a florescer.
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