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"Se queres ser lésbica, és fora das portas da escola"

por

fernanda câncio  

"Sinto-me desiludida. A escola é o sítio onde nos devem educar e abrir a mente para novas ideias e novas culturas, e não tratarem-nos mal e desrespeitarem-nos por sermos diferentes daquilo que é o dito normal." Na voz igual, pausada, Maria ilude a alegada perturbação do último mês e meio em que ela, de 17 anos, e a namorada,Teresa, de 19, dizem ter sido alvo de discriminação por parte de funcionários da escola secundária que frequentam, a António Sérgio, em Gaia.

Teresa queixa-se de que a vice-presidente do Conselho Executivo (CE) lhe chamou lésbica "aos berros" "Disse-me que 'se queres ser lésbica, és das portas da minha escola para fora, não admito esse tipo de comportamentos aqui'." Alega também que o director da sua turma disse à sua mãe que a filha "tinha 'um caso com uma mulher'". A jovem garante que a mãe, a quem estaria "a tentar preparar" para a relação, ficou "completamente chocada." "Fui dizer ao director de turma que não devia ter-se metido na minha vida privada, ele respondeu que, para ele, este tipo de comportamento é 'anormal'". Teresa suspende a narrativa, como quem precisa de ar. "Perguntei-lhe: 'Está a chamar-me anormal? Olhe que lhe meto um processo!'"

Estas atitudes são negadas pelo CE da escola, que assevera estar em causa apenas uma admoestação devido a um comportamento mal educado de Teresa em relação a uma auxiliar de acção educativa e um regulamento interno da escola que apela "ao decoro e à decência" - norma que, de acordo com declarações do presidente daquele órgão, o professor António Teixeira, ao Correio da Manhã, implica que "não permitimos beijos, abraços ou apalpões, de heterossexuais ou de homossexuais".

Terá sido precisamente um beijo entre as duas, logo no início de uma relação que, no relato de Maria, "vai fazer agora oito meses", a desencadear "a polémica", como elas lhe chamam. "Estávamos a ver as notas da Páscoa e beijámo-nos. Uma auxiliar viu e chamou-nos a atenção. Negámos, tinhamos medo que se falasse nisso, mas ela contou às outras funcionárias e a história começou a propagar-se." Foi só neste ano lectivo, porém, que terão ocorrido "problemas a sério". Exemplifica "Ouvíamos as funcionárias chamarem-nos fufas, lésbicas...". Dos colegas não se queixam: "Nunca nos sentimos atacadas. Os mais novos mandam umas bocas, mas não se liga... "

O conflito com o CE foi desencadeado por uma discussão de Teresa com uma funcionária. "Ela meteu-se quando eu estava a dizer mal da escola a uma colega. Disse-lhe que estava farta que se metessem na minha vida e acabei por ser bastante incorrecta. Estava nervosa..." A auxiliar fez queixa e a Teresa foi chamada ao CE."Mas não foi para me falarem do meu comportamento com a funcionária..."

As duas raparigas, como a associação de estudantes, não têm dúvidas em qualificar as atitudes descritas como "homofóbicas". E Teresa questiona "Acha que alguém me chamava ao conselho executivo para me chamar heterossexual?" Mas, apesar de confessar "não ter vontade de ir à escola", "meter" o tal "processo" ou fazer queixa está fora dos planos. "Só nos prejudicávamos. Queremos é ser felizes e que não nos chateiem."

Há porém quem tome como suas as dores de Teresa e Maria. Caso do deputado do BE João Teixeira Lopes, que ontem dirigiu um requerimento à ministra da Educação solicitando-lhe esclarecimentos sobre que providências vai tomar em relação à António Sérgio, "nomeadamente no que diz respeito às normas restritivas e anti-constitucionais que aí vigoram" e reputando de "indignante" que o presidente do CE da António Sérgio tenha dito aos media que "as duas alunas em causa são problemáticas, faltosas e vão chumbar".

A directora regional de Educação do Norte, Margarida Moreira,que afirma estar "a acompanhar a situação", admite só conhecer até agora a versão do CE mas certifica estar "em trânsito" "apoio psicológico" para contactar as jovens. Considera que se alguém da escola comunicou aos pais das alunas a sua opção sexual "isso é desajustado e inadmissível" e diz não poder crer que "o presidente do CE tenha, no início do ano lectivo, condenado as jovens ao insucesso. Isso seria muito grave e objecto do meu repúdio."

Quanto aos beijos e abraços, Moreira reconhece serem parte do ambiente das escolas secundárias, e não querer pronunciar-se sobre regulamentos de escolas. "Não sei o que levou a essa orientação."


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