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editorial

O beijo no recreio

por

João morgado fernandes  

N uma escola de Gaia

discute-se se os adolescentes podem ou não beijar-se no recreio. Esse debate, sobre a expressão dos afectos e da sexualidade pelos jovens no espaço escolar, merece a nossa atenção, tanto mais que surge poucos dias após o Governo ter recebido propostas concretas para a educação sexual que apontam para um tratamento abrangente, não apenas da saúde dos estudantes mas também dos comportamentos.

Mas o que se discute a partir de Gaia é mais complexo e passa pela discussão que ninguém quer assumir o modo como a sociedade e a escola lidam com as várias vivências sexuais dos nossos tempos.

Esta pequena história só ganhou relevância por envolver actos de natureza homossexual. Que jovens de sexos diferentes se beijem às portas das salas de aula pode causar alguma agitação localizada, mas não conduz ao escândalo.

Desconte-se, no caso em apreço, o facto de as jovens terem sido admoestadas por uma auxiliar, o que apenas será revelador da impreparação da generalidade dos operadores públicos nas diversas áreas. A discriminação na escola, pública ou privada, com base nas orientações sexuais não é aceitável, desde logo porque contraria a Constituição. E quanto a isso, que é o essencial da história de Gaia, pouco mais há a dizer.

Mas fica o fundamental, o que interessa a todos os pais - como deve a escola lidar com o natural despontar da sexualidade dos jovens que a frequentam?

A proposta de integração nos vários currículos de matérias relacionadas não apenas com a sexualidade mas com os comportamentos, sejam eles de ordem individual ou colectiva, vai no sentido certo. Resta agora saber como se leva essa ideia à prática. Por exemplo, saber se se deve permitir, ou não, o beijo no recreio.

Regulamentar levará sempre ao excesso e, no caso, ao ridículo, mas deixar o assunto à mercê das análises casuísticas poderá ser outro caminho para o desastre, conhecida que é a nossa queda para a falta de bom senso. O caso de Gaia é apenas um exemplo pela negativa, mas outros deverão abalar os nossos brandos costumes nos próximos tempos. Não seria má ideia reflectirmos antes que ocorram.


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