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"Não sou um cineasta maldito, isso é uma tolice"

por

eurico de barros

e. b.  

"Não sou um cineasta maldito, isso é uma tolice"

Há críticos e historiadores do cinema que o classificaram de "cineasta maldito". O ciclo que a Cinemateca Portuguesa lhe está a dedicar chama-lhe 'O Último dos Mavericks' [individualistas]. Qual destas designações prefere?

Prefiro a portuguesa! (risos).

Então não se considera um "cineasta maldito"?

Não. Isso é uma tolice! Não sei quem inventou essa designação, nem o que quer dizer!

Pense em Erich Von Stroheim...

Não sou um Erich Von Stroheim, de modo algum! (risos)

Vinte e cinco anos depois de ter feito As Portas do Céu, qual é a sensação de ver um filme tão ruinoso e vilipendiado como este ser exibido em cópia integral e restaurada, aplaudido e considerado como uma obra maior em toda a parte?

Em toda a parte menos nos EUA! (risos). É chocante, porque fiz O Caçador e As Portas do Céu quase ao mesmo tempo. Poucas horas antes de ter ganho o Óscar por O Caçador, tinha estado a fazer provas de guarda-roupa ao Kris Kristofferson para As Portas do Céu. Foram cinco anos de trabalho, entre a escrita e a rodagem de ambos. Quase não houve intervalo. Portanto, para mim, não há separação nenhuma entre os dois, sobretudo porque o Christopher Walken entra em ambos e faz como que a ligação entre eles. É notável que estes filmes, rodados há mais de 20 anos, ainda pareçam tão vibrantes e vivos ao público, e ainda toquem as pessoas. Há tantos filmes, em especial os grandes sucessos, que parecem ter envelhecido muito dois ou três anos depois de os vermos. Especialmente os que têm um excesso de efeitos especiais. Como escreveu um amigo meu, enquanto que realizadores como Coppola ou Scorsese vão buscar a sua inspiração aos livros, eu vou colhê-la à vida. Não há outros filmes nos meus filmes, saiu tudo da vida, de experiências reais. Até acabei por deitar fora o livro que está na origem de O Ano do Dragão, e escrevi um argumento original com o Oliver Stone. E o mesmo sucedeu com O Siciliano.

Pode dar-me um exemplo concreto de uma situação de um filme seu que tenha saído da vida real?

Em A Última Golpada, o meu primiero filme, lembra-se da cena do condutor lunático que dá boleia ao Clint Eastwood e ao Jeff Bridges e tem o tubo de escape ligado ao interior do carro e guarda os coelhos no porta-bagagens para os caçar? Nessa altura, um crítico da Time, que adorou o filme, telefonou-me e convidou-me para almoçar. Mal me viu, perguntou-me "Onde diabo é que você foi buscar aquela ideia?". E eu respondi-lhe: "Não é uma ideia, um tipo que eu conheço fez aquilo! É verdade!" Ou seja, eu não faço filmes com ideias, sobretudo ideias políticas, que não tenho. Nenhumas! Tal como nos meus livros, vou buscar experiências minhas ou coisas que conheço. Como comecei a singrar na vida muito novo, tal como Orson Welles, viajei muito e vi tantas coisas, que tenho muito onde ir buscar. Muito mais do que as pessoas que fizeram cursos de cinema.

Nunca estudou cinema?

Não. A minha formação é em artes plásticas e arquitectura. Não sou um típico "homem de cinema". Quando me perguntam quais as minhas influências, respondo Degas, Frank Lloyd Wright, Louis Sullivan, etc.

Mas gosta muito de John Ford.

Ah, sim. Já disse isto milhões de vezes Visconti, Ford e Kurosawa formam a minha Santíssima Trindade. Visconti é o Pai, Ford o filho e Kurosawa o Espírito Santo.

Falou em Orson Welles. Sente-se de alguma fora identificado com ele, pelo seu individualismo, pelos problemas que teve com os seus filmes e pelos vários projectos que nunca concretizou?

Sim, sinto afinidades com ele no sentido em que ambos fizemos o primeiro filme muito novos, fomos aplaudidos e celebrados muito cedo e depois condenados logo a seguir. Os três realizadores da história de Hollywood que foram condenados, pela indústria e pelos media, são Griffith, Welles e eu. E apenas por termos tentado contar histórias dos EUA como as víamos. Griffith foi acusado de ser racista e O Nascimento de uma Nação esteve para ser oficialmente banido. Welles foi acusado de ser megalómano por ter contado a história real de um proprietário de jornais em O Mundo a Seus Pés, e a partir daí tentaram destruir tudo o que ele fez. Nos EUA, não gostam das pessoas que têm sucesso muito cedo. Gostam de as fazer sofrer. Veja o Clint Eastwood, só lhe deram Óscares depois de 40 anos a fazer filmes. Eu fui condenado por ter feito As Portas do Céu, uma história real e o mais bem documentada possível, que aconteceu nos EUA no século XIX a "guerra do condado de Jackson", onde o Presidente da República e o governador do Wyoming sancionaram o genocídio dos imigrantes fazendeiros pelos criadores de gado: cada morto valia 50 dólares.

Não haverá aí também um ressentimento por você não ser uma pessoa do meio cinematográfico?

Sim, e também porque não fui para Hollywood em busca de fama e dinheiro. Dinheiro já eu tinha, e também já conhecia o sucesso. Ainda por cima, estudei em Yale. Era um outsider em Hollywood. E com muito gosto. Mas a ignorância não é só dos americanos, é também dos europeus. Quando estive em Paris a mostrar a cópia restaurada de As Portas do Céu, uma jornalista do Libération começou uma entrevista com esta pergunta "Você é megalómano?" E eu: "Desculpe?". Ela repete: "Você é megalómano?". "O que quer dizer com essa palavra?", respondo-lhe. E ela "Você sabe, megalomania, magalomania!". Aí, perguntei-lhe se ela conhecia o significado de megalomania. E ela não sabia! Então, disse-lhe: "Então você representa um dos mais importantes jornais franceses e está aqui a perguntar-me se eu sou uma coisa que você nem sabe o que quer dizer?" Há tanta estupidez neste mundo... Eu sei o que é uma pessoa ser ridicularizada em público no seu próprio país, e por vezes isso é muito difícil de suportar. Só quem passou por isso é que sabe o que é. É como ter ido à guerra. Por isso, admiro Griffith e Welles, sei a coragem, disciplina e força interior que são precisas para sobreviver a esses ataques.

O autor de 'O Caçador' e 'As Portas do Céu' veio a Lisboa assistir à abertura do ciclo que a Cinemateca lhe está a dedicar, 'Michael Cimino, o Último dos 'Mavericks''

"Toda a gente em Hollywood tenta ser como George Lucas"

Um dos seus projectos mais antigos é uma adaptação do romance The Fountainhead, de Ayn Rand. Mas a sua ideia não é fazer um remake do filme de King Vidor sobre o mesmo livro, Vontade Indómita, rodado em 1949

Não. Eu escrevi uma versão contemporânea da história porque os arranha-céus já não são uma novidade, como quando o livro foi escrito, em 1943. Por isso, usei como modelo a obra do arquitecto italiano Paolo Soleri, que é uma espécie de teórico visionário. Ele vive no Arizona e concebeu umas estruturas de megacidades no deserto, que usei em vez dos arranha-céus. Estive muito perto de ter o Clint Eastwood para o papel principal, ele adorou o argumento e queria fazer o filme. Mas nessa altura - foi antes dos Óscares para Imperdoável - o Clint estava com um bocadinho de receio de competir com o Gary Cooper, que ele admira imenso, no filme do Vidor.

É uma história sobre um outsider, um individualista, como você.

É a história de Ayn Rand sobre Frank Lloyd Wright, que ela admirava imenso. Era o herói dela. Se havia alguém que eu queria ser, era o Frank Lloyd Wright. E para mim, valia a pena fazer o filme só por causa de uma cena. Vê-se um enorme estaleiro de construção em Nova Iorque e os tapumes têm buracos para as pessoas verem as obras. O herói, Howard Roark [Gary Cooper], não podia estar mais em baixo perdeu todos os clientes, teve que fechar o gabinete e trabalha numa pedreira. Ele vem a caminho de casa nas roupas de trabalho, passa pelo estaleiro e pára um bocadinho para ver os trabalhos. E podemos ler-lhe na cara a vontade que tinha de ser ele a estar a construir aquele edifício. Então aparece um dandy de fato completo, polainas, monóculo e bigode perfeito, um sacana pretensioso, que chega ao pé do Gary Cooper - ele faz metade do Cooper - e lhe diz "Não sabe quem eu sou, pois não?". O Cooper olha para ele mas não lhe responde. "Sou Ellsworth Toohy, sou o crítico de arquitectura do Times". O Cooper continua sem lhe dizer nada. "Eu sou a pessoa que o impediu de fazer este projecto, fui eu que o forçou a voltar a ser um operário, fui eu que dei cabo da sua carreira, sozinho. O que pensa de mim?" . E o Cooper então diz-lhe. "Mas eu não penso em você", e vai-se embora. Esta cena é a razão para eu fazer este filme. (risos)

Não filma desde The Sunchaser, de 1996. Mas foram-lhe propostos outros projectos mesmo depois do fracasso deste?

Sim, e ainda hoje me oferecem coisas, mas eu não quero fazê-las. São filmes simplórios. The Sunchaser representou os EUA na competição do Festival de Cannes. Eu não gostei muito do argumento, mas tinha potencial, é a história de um mestiço de índio e negra, interpretado pelo Jon Seda, e o tema era a polarização radical de Los Angeles, de que as pessoas não têm noção. Há uma zona de guerra em Los Angeles, que está isolada do resto da cidade. Quando eu fiz The Sunchaser, a idade média de um assassino em Los Angeles era 11 anos. Rapazes e raparigas! Nem quero pensar qual é a média agora, quase 10 anos depois. O que eu vi em The Sunchaser foi a oportunidade de filmar um diálogo entre o Leste e o Oeste de Los Angeles, através das personagens de Seda e de Woody Harrelson. Reescrevi o argumento, mas duas semanas antes de começar a filmar baixaram-me o orçamento de 30 para 20 milhões de dólares e por isso tive que rodar muito depressa.

E acabaram também por lhe estragar o filme, apesar de ter estado em Cannes.

Há muitas maneiras de se matar um filme. As pessoas que investiram em The Sunchaser - uma gente horrível -, tiveram uma série de outros filmes que fracassaram antes deste, e por isso não o distribuíram. Pode-se matar um filme na montagem ou na pós-produção, mas este foi morto depois de ir a Cannes - e apesar de ter tido boas críticas.

Na Hollywood de hoje ainda é possível ser-se um realizador individualista, como há 20 ou 30 anos?

Já não há realizadores individualistas no cinema americano. Toda a gente tenta ser como o George Lucas. Até mesmo os cineastas ditos independentes.


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