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Vida Literária para Cesariny "Toda a vida fiz infracções"

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elisabete frança  

"André Breton dizia que os surrealistas não deviam receber prémios. É uma infracção que faço, mas toda a vida fiz infracções", comenta ao DN o poeta e artista plástico Mário Cesariny de Vasconcelos, 82 anos, que foi distinguido ontem com o Prémio Vida Literária, da Associação Portuguesa de Escritores (APE)/Caixa Geral de Depósitos (CGD), no valor de 25 mil euros.

"Mário Cesariny é, na singularidade extrema da sua estética, um poeta raro. Celebrá-lo, por tudo quanto doou à nossa comunidade de leitores através de gerações, assume, assim, a plenitude de uma homenagem livre e devida", considera o júri, a direcção da APE, em comunicado. A decisão, unânime, salienta o "fulgor de um percurso artístico que, também na literatura, encontrou a expressão mais alta".

Tal como antes recebera o Grande Prémio EDP de Artes Plásticas/consagração - biénio 2002-04, com inerente retrospectiva integral, há um ano, no Museu da Cidade -, o poeta de Pena Capital e Titânia ou A Cidade Queimada aceita a(s) distinção(ões), embora "em infracção", argumentando "Porque, para mim, este é um prémio da democracia, enquanto com a ditadura me dei muito mal". Recorde-se que, sob o fascismo salazarista, o também estudioso e organizador editorial da memória e história do surrealismo português sofreu perseguição policial sistemática, devida à sua homossexualidade, a ponto de exilar-se em Londres.

Daí que, tanto quanto em reacção ao EDP de consagração, reconheça "Estou contente, sim. E têm a gentileza de vir trazer-me o prémio a casa, porque já me custa a andar." No seu peculiar estilo jocoso, a propósito da bicicleta para exercício domiciliário, remata o poeta: "olho para ela e começo-me a rir, mas a pedalar ainda não comecei." Nunca os "grilos da paróquia" venceram o humor natural deste sobrevivente, para nos remetermos ao poema de O'Neill (ver texto reproduzido em baixo).

O presidente da APE, José Manuel Mendes, e o representante da CGD, patrocinadora do prémio, acompanhados pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, não entregarão o Vida Literária na Culturgest, como sucede normalmente, mas, sim, na residência de Mário Cesariny, em Lisboa, como já acontecera no caso de José Cardoso Pires, hospitalizado à época, tendo o prémio sido levado à sua esposa, na residência. José Manuel Nunes lembra ao DN esse "único precedente", adiantando que, nessas circunstâncias e por razões óbvias, "o acto em si não será aberto à Comunicação Social, embora certamente seja pensada uma forma de os jornalistas se encontrarem nas imediações" da casa, a Sete Rios, no dia 30.

O presidente da APE e também poeta faz questão de declarar-nos "Na associação reside a ideia de que, sendo Mário Cesariny quem é, havia um débito das instituições literárias em relação a ele. Em parte por ser um homem discreto, tem sido pouco considerado para decisões deste tipo e nós tínhamos de liquidar esse débito perante o esplendor da sua obra poética."

A coroar reconhecimentos, espera-se que o ICAM deixe de chumbar o projecto do filme A Norma de Bellini, de Manuel Gonçalves Mendes, realizador do premiado Autografia (documentário sobre Cesariny), segundo guião do poeta e pintor, com participação também pre- vista entre os intérpretes.


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