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por
Leonídio Paulo Ferreira
Rosa Parks morreu segunda-feira aos 92 anos em Detroit, cidade do Michigan a um passo do Canadá, mas foi no Deep South, o "Sul profundo" dos Estados Unidos, que num dia de 1955 conquistou um lugar na história. Em Montgomery, capital do Alabama, os afro-americanos estavam obrigados por lei a ceder o seu assento nos autocarros a qualquer branco que o pedisse. Habituados a serem discriminados, os negros americanos aceitavam essas regras como naturais, mas Parks, então com 42 anos, achou que já era demais. E ousou dizer não. Foi de imediato presa. Uma prisão que acabou por libertar os negros de séculos de opressão.
Passado meio século, os Estados Unidos são um país de tal forma diferente que a homenagem a Rosa Parks foi unânime. O Presidente George W. Bush elogiou a mulher que "contribuiu para desencadear o movimento pelos direitos cívicos", acrescentando que com a sua coragem esta "transformou a América, tornando-a melhor". O mais destacado líder actual dos afro-americanos, o reverendo Jesse Jackson, também saudou emocionado a memória de "uma combatente da liberdade". E, sinal dos tempos, mesmo o jornal Montgomery Advertiser, publicado na capital do Alabama, escreveu em letras gordas na sua primeira página o título "A nação faz luto pela mãe do movimento dos direitos cívicos".
Rosa Parks nasceu a 4 de Fevereiro de 1913 em Tuskegee. A cidade era então famosa pela sua universidade para negros, fundada por Booker T. Washington no século XIX, mas tal como no resto do Alabama a segregação racial era a regra. A jovem Rosa cresceu numa quinta e mais tarde começou a trabalhar como costureira. Era essa a sua profissão quando a 1 de Dezembro de 1955 se recusou a dar o seu lugar num autocarro de Montgomery a um branco. Já inscrita como militante na NAACP, a principal associação de afro-americanos, Parks recusou acatar as indicações para se levantar e acabou por ser presa, acusada de desrespeito pela ordem pública. Nesse mesmo dia, cinco dezenas de líderes negros americanos reuniram-se para decidirem como reagir à prisão da activista. Entre eles estava o reverendo Martin Luther King, da Georgia, que se iria destacar como o principal líder do movimento pelos direitos cívicos, uma vasta campanha de pressão popular e política que nos anos 50 e 60 conseguiria fazer revogar as leis segregacionistas.
A resposta dos líderes negros foi um boicote aos autocarros de Montgomery por parte da numerosa população negra. Ao mesmo tempo, contando com a simpatia de alguns políticos a nível nacional, incluindo o Presidente Dwight Eisenhower, a pressão para abolir as leis segregacionistas aumentou de tal forma que em 1956 o Supremo Tribunal declarou inconstitucional a discriminação racial nos autocarros. Foi a primeira vitória de Parks e dos afro-americanos.
A costureira do Alabama instalou-se nos anos 60 no Michigan, onde trabalhou duas décadas como conselheira de um congressista democrata. Vivia já em Detroit quando, sob a Presidência de Lyndon Johnson, em 1964, a Civil Rights Act pôs formalmente fim a todas as leis discriminatórias que tinham surgido no Deep South após a abolição da escravatura no século XIX.
De saúde há muito frágil, Parks morreu em casa. Há dez anos, sofreu um violento assalto, obra de um afro-americano. Há dúvidas sobre se este a reconheceu como a sendo a heroína de Montgomery.
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